16 de set de 2013

Pesadas sacolas

Uma mulher, 60 anos, entra na sala de perícias. Usa sandálias de plástico e um conjunto de saia e blusa, muito simples. Sua expressão é pesarosa. Seu corpo parece arrastar. Anda, quase não querendo. Aparenta mais idade do que tem. Já é uma senhora. Nas mãos, duas sacolas bem cheias. Julguei que estivesse sentindo dor e ofereci ajuda. Ela agradeceu, mas recusou. 

Logo em seguida, entram uma mulher de 30 anos e uma menina de uns 12, mãe e filha. Trata-se de uma investigação de paternidade por espólio: a senhora foi convocada pela justiça para provar que seu filho, falecido, é o pai da menina presente. Pela atmosfera do ambiente, dava para perceber que senhora, mãe e filha nunca haviam se encontrado antes. Conheceram-se ali, naquela ocasião. Mãe e filha viviam na capital de SP. A senhora vivia no interior longínquo.

Minha colega, a perita do plantão, as orienta para que se sentem. A senhora se agarra às sacolas. E se acomoda muito desconfortavelmente. O olhar dela baixa. E assim fica. Ao lado dela, existem outras cadeiras, que ela poderia usar para se sentir menos "amontoada". Resolvo tentar, mais uma vez, ajudar:

- A senhora não quer colocar as sacolas nas outras cadeiras para ficar mais à vontade?

E a senhora começa a chorar. Muito. Eu e minha colega nos entreolhamos. Pergunto:

- A senhora quer que eu te ajude?

Ela nega com a cabeça. E vai chorando e colocando, gentil e devagar, as sacolas ao seu lado. Não estamos entendendo nada. Levanto-me, pego toalha de papel e entrego a ela. A senhora me olha nos olhos para agradecer e vejo seus olhos encharcados e vermelhos. Suas lágrimas preenchem os vincos da pele cabocla. Delicadamente, passo a mão em seus presos cabelos brancos. E pergunto: 

- A senhora quer água?
- Não...
- Por que a senhora está chorando? 
- Estas sacolas são os pertences do meu filho.

Ela tornou a chorar. E eu me segurei para não fazer o mesmo. O luto era recente. Minha colega e eu a consolamos. Explicamos que o procedimento seria apenas com a coleta de uma gota de sangue dela. Esta senhora não foi suficientemente orientada. Ou ela estava atordoada demais para compreender qualquer coisa neste momento de sua vida. E trouxe, de ônibus rodoviário do interior até a capital, duas sacolas com escova de dente, escova de cabelo, aparelho de barbear, roupas e sapatos do filho recém-falecido. Ela achou que o exame seria feito com os objetos pessoais dele.

Aquelas sacolas, não eram apenas sacolas. Era o próprio filho dela.

4 de set de 2013

Casal sorridente

O objetivo da mãe era colocar o nome do legítimo pai na certidão de nascimento da filha, que constava como "sem registro" na filiação paterna. Para isso, ela entrou com um pedido na justiça por meio do Fórum Regional do bairro dela. A autoridade competente encaminhou ofício ao IMESC, solicitando o agendamento para o exame de investigação de paternidade. E as partes envolvidas foram comunicadas mediante intimação judicial.  

Entram na sala de perícias, um homem e uma mulher, na faixa dos 40 anos, e uma garota de 13. Os dois adultos tiveram um caso de amor, há 15 anos. Ela engravidou dele. Naquela ocasião, eles se afastaram. Tomaram rumos de vida diferentes, mas nunca perderam o contato. A garota cresceu sabendo que tinha um pai. Encontravam-se, de vez em quando. A relação é tranquila entre os três. 

Antes da coleta do material genético (sangue, neste caso), é realizada uma entrevista pela perita. Neste instante, apenas observo e aguardo. O ambiente está amigável. O casal é sorridente e a filha está animada. Os questionamentos são sobre informações pessoais, profissionais e familiares. 

Em um determinado momento, é necessário que os periciandos (pai e mãe) respondam sobre "grau de parentesco". A perita pergunta aos pais:

- Vocês possuem algum grau de parentesco?
- (silêncio)
- Vocês possuem algum grau de parentesco?
- Oi? 
- Quê?
- Vocês possuem algum grau de parentesco? São parentes? Irmãos? Primos?

Pai e mãe se entreolham, cúmplices. Sorriem envergonhados. O pai responde baixo:

- Somos primos. 

A garota arregala os olhos para mim. 

A perita pergunta, "primeiro ou segundo grau?". A mãe responde:

- Primeiro grau.

A garota abre a boca de espanto. E olha para mim.

A filha ainda não tinha entendido muito bem. E confirma com a mãe:

- Você é prima do meu pai??

"Depois explico, filha", e um sorriso "câimbrico" estampou o rosto da mãe.

A garota "fecha a cara". Fica pensativa. 

Por alguns segundos, me senti dentro de um roteiro de novela das nove. Mas a expressão da garota, que mudou de animada para intricada, me fez discordar de Oscar Wilde e afirmar que quem imita a vida é, realmente, a arte.

Investigação de Paternidade

Atuar como técnica de enfermagem para a Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania é um evento diferente. O indivíduo ali não é, exatamente, um paciente, mas um "periciando". Para mim, atuante no setor de coleta de material genético, isso foi uma novidade.

O ambiente no IMESC (Instituto de Medicina Social e de Criminologia) , especialmente na coleta, é tenso e as circunstâncias são estressantes. As pessoas ali estão envolvidas em situações, muitas vezes, constrangedoras. A secretária recorre ao exame de investigação de paternidade para provar  que o dono do escritório onde trabalhou é pai do filho dela. A amante recorre ao exame para provar que o marido da esposa é pai do filho dela.  A doméstica recorre ao exame para provar que o patrão, marido da patroa, é pai do filho dela. A pré-adolescente recorre ao exame para provar que o namorado, também adolescente, é pai do filho dela. O comerciante recorre ao exame para provar que a criança não é dele e afastar a mãe oportunista. O recém-separado recorre ao exame para provar que a criança não é dele e afastar a ex-mulher oportunista.

Estes são alguns exemplos das diversas situações que aparecem no IMESC. Existe também o caso de espólio, em que é preciso provar que um irmão, que apareceu após 30 anos na vida de uma família, é parente legítimo e, portanto, possuirá os mesmos direitos. Alguns dos atendimentos que realizei me marcaram emocionalmente. Especialmente, duas histórias que relato agora nas próximas postagens.

Boa leitura!