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18 de ago. de 2009

Pessoas em situação de rua

O estágio no albergue para pessoas em situação de rua foi arrepiante. Vimos e lidamos com situações inusitadas e inesperadas. O local era dividido em alas feminina e masculina. Primeiramente, fui escalada para cuidar dos homens, em sistema de revezamento. Dentre os cuidados: arrumação de cama, limpeza concorrente, banho no leito e aspersão, trabalho educativo, verificação de sinais vitais e... curativos, estes sim, de arrepiar. Não tínhamos todo o material adequado. Usávamos luvas, soro fisiológico, fita crepe e gaze. Houve uma ocasião na qual precisei realizar um curativo no pé de um senhor que possuía apenas o dedo mínimo íntegro. Os outros dedos haviam caído, literalmente, por conta do tecido exposto e necrosado. Minha preocupação era dar alívio aquele senhor, que me pedia para passar - insistente e firmemente - a gaze em volta do único dedo. O cuidado prestado lhe causava uma boa sensação. Suportei o odor fétido de seu pé, sem máscara, até quando se mostrou satisfeito. Finalizada a limpeza, perguntei se eu podia ajudá-lo em mais alguma coisa e tudo o que ele conseguia dizer era “Deus lhe pague, Deus lhe pague”.

Outro curativo que me arrepiou foi a de um senhor que não possuía o globo ocular direito. Era uma cavidade aberta, que permitia a visão da musculatura e dos tecidos do osso malar e do nariz. Enquanto realizava o curativo, ele espirrava e tossia. Quando isso acontecia, era expelida da cavidade certa quantidade de uma secreção esverdeada. E eu, sem máscara, precisava reiniciar o procedimento até garantir uma perfeita limpeza.

Mas o mais arrepiante mesmo vou contar agora. Em um albergue para pessoas em situação de rua encontram-se diversos tipos: mendigo, viciado, doente mental, deficiente físico, idoso perdido, meliante. Existem aqueles que passam somente uma noite e aqueles que praticamente moram ali. Uma dessas pessoas, que faz do albergue sua casa, é uma mulher de quase 50 anos, morena clara, magra, de aspecto esquálido, baixa estatura, olhos fundos com olheiras, bastante envelhecida, usando prótese dentária apenas na parte inferior da boca e forte batom rosa. Vestia uma camisa amarelada com uma saia rodada florida e sandália velha. Andava arqueada, com a cabeça baixa e o olhar para cima, a voz infantilizada, apertando os dedos das mãos contra o próprio peito, como se aguardasse o momento certo para agarrar algo. O rosto dela lembrava um pouco a personagem Baby Jane Hudson, da Bette Davis. Ela já era conhecida de todos ali, menos minha. Em um dado momento, a professora pediu-me para buscar um objeto na nossa sala, que ficava ao fundo do albergue. Ao entregar-me a chave, a professora perguntou “você vai sozinha numa boa, né?” e eu disse, “claro”. Mas ao seguir caminho fiquei pensando por que ela havia perguntado aquilo. Entendi que era preciso jogo de cintura no percurso, afinal, ninguém ali dentro poderia ser considerado equilibrado. Levando muito mais tempo que o necessário – cumprimentando todos, dando atenção, sendo cordial – cheguei ao meu destino. Era um setor pouco iluminado, gélido e sem nenhuma circulação de pessoas. Entrei por um pequeno corredor, avistei a nossa sala, fui me aproximando da porta e ao tentar colocar a chave na fechadura, ouço uma vozinha atrás de mim “você conhece a boneca assassina?”. Senti um frio na espinha. Olhei para trás e, quando vi quem era, senti borboletas no estômago e meus olhos arregalaram. Era a Baby Jane brasileira. Deixei a chave cair no chão. Notei o contentamento no olhar dela quando viu que seu objetivo foi alcançado. Sim, ela me assustou e arrepiou meu couro cabeludo. Eu poderia ter corrido, gritado ou desmaiado, mas me mantive ali. Peguei a chave do chão, tentei normalizar os batimentos cardíacos, comecei a abrir a porta da sala e, olhando profundamente nos olhos dela, respondi “claro que conheço, não é daquele filme?”. E, assim, iniciamos uma conversa sem pé nem cabeça sobre o filme da boneca assassina. Acompanhando-me na volta, ela contou que havia ganhado uma boneca que foi roubada etc e tal... Um dos grandes sustos da minha vida adulta.

20 de jul. de 2009

Estágios

Tive meu primeiro contato real com a rotina hospitalar atuando como estagiária. A professora, que precisa ser uma enfermeira, explanava e apresentava detalhadamente toda a unidade: recepção, copa, rouparia, sala dos médicos, sala da enfermagem, posto de enfermagem, farmácia ou CAM (Centro de Abastecimento de Materiais e Medicamentos), enfermarias/quartos, expurgo, banheiros etc. Orientados quanto à postura, ética, respeito e responsabilidades, nós - alunos/estagiários - estávamos mais do que apreensivos e ansiosos em atender e interagir logo com um paciente.

Aliás, nos ensinaram que o paciente virou "cliente" e assim ele dever ser chamado. O argumento é que a pessoa hospitalizada está contratando os serviços do estabelecimento e do médico. Ela paga por tudo aquilo, tanto no atendimento público quanto no particular. Who am I to disagree?!
(Eurythmics). Mas torço o nariz para isso porque paciente precisa, de fato, ter paciência. E paciência é sinônimo de espera. Espera pelo atendimento, pela chamada, pela entrada, pela internação. Espera pela maca, pelo desjejum, pela enfermagem, pelo médico. Espera pelo resultado do exame, pela radiografia, pela alta, por tudo. O que um internado mais faz é esperar. E esta realidade vai mudar porque passaremos a tratá-lo como "cliente"?. O termo remete a uma ideia de assiduidade que até pode ser verdade (infelizmente, devido aos inúmeros retornos ao hospital), mas que está longe do propósito do ser humano doente que quer recuperar sua saúde e não contratar serviços. Quem é que quer ficar voltando ao hospital como se fosse um habitué?. Disseram que é preciso mudar esta relação entre médico e doente, tornando este menos passivo. E mais comercial, claro. Na minha opinião, esta é uma forma negativa e enganosa de lidar com o hospitalizado. "Clientes" talvez sejam melhor atendidos em hospitais particulares e, ainda assim, também esperam.

Mas, voltando!

No estágio, ou ficávamos na medicação ou nos cuidados e havia um revezamento de alunos no atendimento. Depois de conhecermos o centro de materiais esterelizados, estagiamos nas unidades de ortopedia e traumatologia infantil e adulto, geriatria, oftalmo, otorrino, centro cirúrgico, pronto-socorro infantil e adulto, obstetrícia, pediatria e até em albergue que recebe pessoas em situação de rua. Trabalhamos muito! De limpeza concorrente à terminal, de banho no leito a curativos, de realização de medicação às anotações de enfermagem, de organização de gavetas à passagem de plantão. Meu critério pessoal era o seguinte: se eu saísse descabelada e suada é porque aquele lugar estava rendendo bons aprendizados.

Trabalhar na "área da doença" é um ato de bravura. Quero agradecer, sinceramente, às equipes de enfermagem dos hospitais. Estes profissionais merecem respeito e compreensão (nós merecemos!). Agradeço a cada um que teve a gentileza de me "mostrar como se faz", mesmo não estando em um bom dia. Espero agir como vocês, quando chegar a minha vez.

8 de jul. de 2009

Aproximação

Para descobrir onde seria melhor estudar, realizei uma pesquisa grande. Visitei hospitais, conversei com enfermeiros, liguei em escolas. A primeira coisa que aprendi foi a hierarquia: auxiliar de enfermagem, técnico em enfermagem e o enfermeiro. Sempre explicava que queria estar perto do paciente, tendo contado direto, e que não queria liderar nada nem comandar ninguém. O profissional auxiliar é o peão, assim me disseram. Ele faz de tudo, do sujo ao pesado. E, "às vezes, sabe mais que o médico por causa da prática", me alertaram. Uma técnica em enfermagem indicou-me uma escola fundada pelo grupo de freiras que educaram minha mãe no interior de São Paulo. Obviamente, fui conhecer esta escola. A irmã-diretora me recebeu com tanta alegria que ela convenceu-me a fazer a matrícula. As aulas começariam dali uma semana! Desconhecia totalmente a legislação do ensino de enfermagem, os estágios obrigatórios, a carga horária mínima. A irmã-diretora disse "saindo daqui, você terá portas abertas em qualquer lugar e, com sua formação, você vai querer fazer a faculdade de enfermagem, não é?". Dei um sorrisão.

Eu não pensava e nem penso em ser enfermeira. Fiquei sabendo que, atualmente, o enfermeiro está cada vez mais distante do paciente. Ele fica cuidando da administração, burocracias, parte operacional, manutenção do setor, abastecimento da unidade, registros de lotes. Não, não era isso que eu queria. Outro dia, me explicaram que não era bem assim, que dependia do tipo de enfermagem que eu iria focar. O fato é que nem atuando como auxiliar de enfermagem estou! Então, "viola no saco".

Meus colegas de sala eram manicures, donas de casa, cabeleireiras, empregadas domésticas, motoboys, carregadores, atendentes e estudantes saídos do ensino médio interessados na rapidez da profissão técnica. Eu era a única "diferentona" ali. E sofri com hostilidade e preconceito. Naturalmente, me defendia. E nem sempre fui diplomática porque meu 'pulso ainda pulsa' (Arnaldo Antunes). Identificar-me com alguém foi difícil, mas mantive uns cinco ou seis colegas durante os 12 meses de curso. No começo, éramos 27. Terminamos com 19 alunos.

Fui uma aluna muito acima da média na parte teórica. Dez, nove, às vezes, um oito. Nos estágios, aluno nenhum podia ganhar nota alta. Essa era a regra porque estávamos todos aprendendo juntos. Dei mancadas, como todos, e - mesmo assim - continuei acima da média e me destaquei com os pacientes. E era isso que me interessava ali. Mesmo diante daquele cenário, lidando com doenças, eu estava tão animada de estagiar nos hospitais que, mais do que fazer bonito para as professoras, eu queria ganhar a confiança do doente. Além do que a escola e os estágios ensinam, e que é fundamental como proteção, segurança, responsabilidade, carinho, humanidade e respeito, percebi que é possível realizar os cuidados de enfermagem com personalidade.