27 de jan. de 2012

2000 visitantes!

Neste instante, dois mil visitantes. O Visita da Saúde existe desde abril de 2009 e só fiz meu primeiro post após três meses de criação do blog. Foi suado garimpar estas duas mil joias nestes quase três anos de existência. Mas prefiro, como se pode ver, assim: devagar e sempre. Obrigada pelo interesse, caros(as) leitores(as)!

24 de jan. de 2012

Surto psicótico - Caso 01

Estava na sala de enfermagem, realizando um atendimento, quando escuto um vozeio feminino do lado de fora. O sinal de alerta acendeu. Minutos depois, batem na porta da sala. É a recepcionista, que me diz, "Cinira, as profissionais todas estão ocupadas, não sei o que fazer! Estou com um problema aqui e não sei resolver! A pessoa está muito alterada! Você pode vir aqui?". Pedi um instante de licença ao paciente que eu estava conversando e saí com ela para ver o que estava acontecendo. Avisto na recepção duas moças: uma, em pranto, ao lado de outra, mais sisuda. "Por que você está chorando?", pergunto. Neste instante, a moça séria,  vestida de saia longa e camisa branca fechada até o pescoço, alta estatura e cabelos presos em um longo rabo de cavalo, me pega pelo braço, diz "vem aqui" e me puxa até a sala de onde eu havia acabado de sair. Sem resistir, sigo com ela. Ao abrir a porta da sala de enfermagem, ela se constrange e pede desculpas. Não sabia que havia gente ali. Em segundos pensei, "como fui tola... fui falar com a moça que estava chorando, achando que era ela quem estava 'causando'!". Menos uma percepção limitada na minha vida profissional em saúde mental. Olho nos olhos da moça séria e digo, "vou me despedir deste paciente e te chamo em seguida". Pergunto seu nome. Carolina (nome trocado) está inquieta. Ao meu gesto, indicando para que entrasse, correu, entrou e fechou a porta. Ficamos somente eu e ela, a portas fechadas. Carolina está com um terço e uma garrafa de água mineral nas mãos. Anda de um lado para o outro e a respiração está ofegante. 

- Senta aqui para eu poder conversar com você, por favor. 
- Eu vou benzer a sala primeiro.
- Tudo bem.

Ela abre a garrafa, joga água nas mãos e vai espalhando a "água benta" na sala toda, proferindo preces. Enquanto a observava, eu conduzia minha mente, "crie empatia, seja dócil, ganhe a confiança, entenda o raciocínio, tenha controle da situação sem pressão e, o principal, não subestime a inteligência dela". Ao terminar a "bênção", ela sentou-se, tensa. Respirava fundo e abanava-se, esboçando um sorriso que nunca se concluía. 

- Que lindo seu terço. Você está sempre com ele?
- Sim. Sou postulante das irmãs beneditinas. 
- São Benedito! 
- Você acredita em Deus?
- Sim! 
- Você é católica?
- Pratico pouco o catolicismo atualmente, mas minha formação é católica, estudei em colégio de padres, estudei enfermagem com freiras, faço minhas orações...
- Entendo. Estou vendo seu brinco.

Eu usava um brinco de argolas pequeninas, douradas, com um minúsculo pingente de crucifixo dourado, pendurado do lado esquerdo. A partir daí, entre risadas nervosas e choros retraídos da Carolina, o atendimento foi sendo realizado em tom de bate-papo. Meu objetivo era estabilizar o ânimo da paciente, oferecer um ambiente seguro e confiável e tentar obter elementos para conhecer e compreender o conjunto da situação. A moça que estava chorando é irmã dela. Logo depois, chegou a mãe, com os remédios de Carolina. A paciente relatava que estava tudo bem, mas que o único problema era quando a outra pessoa não entendia o que ela dizia e aí ela perdia a linha de pensamento. Pergunto se posso chamar sua irmã, pois eu queria compreender por que ela estava chorando. Carolina "me autoriza". Conversando com a irmã, soube que a paciente havia puxado o freio de mão do carro, no meio da Radial Leste, e que foi um sufoco, porque quase sofreram um acidente vindo até o CAPS.

Carolina, paciente de 23 anos, nunca usou drogas. A jovem estava apresentando um quadro de surto psicótico, podendo evoluir para uma crise esquizofrênica. Com a paciente, a irmã e a mãe tranquilizadas, explico que estava na hora de chamar a psicóloga porque elas precisariam conversar com uma profissional técnica. A psicóloga deu início ao seu atendimento, mantendo o clima suave que foi instalado no ambiente. Carolina continuava chorando e rindo ao mesmo tempo, mas com menos intensidade. Aos poucos, a psicóloga foi argumentando e convencendo a paciente sobre a necessidade dela tomar a medicação que recusava.

Após ser medicada com, pelo menos, um dos seus remédios, Carolina foi encaminhada ao serviço de referência em transtornos mentais. Na hora de se despedir, me abraçou forte, agradeceu e me chamou de "Sininho" (relacionando meu nome com a fada). Finalizada a longa intercorrência, fui ao banheiro. E chorei. Chorei por ver o sofrimento do portador de uma doença psíquica, por ver o risco em que são expostos os familiares e por Deus se fazer presente nas horas mais inesperadas. Este fato ocorreu no dia seguinte ao momento no qual eu questionava minha atuação na saúde mental.

Após um mês, chegaram dois cartões no trabalho, um endereçado para a psicóloga e outro para mim. A remetente era Carolina. Em um cartão da Nossa Senhora do Sion, ela agradecia o acolhimento e contava que estava melhorando. Atualmente, após dois anos e quatro meses na área, não incomodo Deus, nem santo nenhum, nem santa alguma com determinadas questões. Fadas tampouco.

22 de jan. de 2012

Antes de entrar em 2012 ...

... quero relatar duas intercorrências que aconteceram no meu trabalho, no final do ano passado. Acredito que elas devam constar aqui por duas razões: para aproximar o(a) leitor(a) da realidade de um indivíduo em surto psicótico/esquizofrenia e para contar como me portei diante de situações que nunca havia experimentado antes.

3 de jan. de 2012

Para comentar neste blog

Caro(a) leitor(a), 

se você tentou comentar neste blog e não conseguiu, talvez você precise utilizar o navegador Google Chrome. Baixe e instale aqui: https://www.google.com/chrome?hl=pt-br

Algumas pessoas estão tendo problemas para postar seus comentários quando escrevem pelo Mozilla, Internet Explorer etc.

Espero ter ajudado a solucionar um contratempo que está complicando a vida de alguns bloggers!

:-)

7 de out. de 2011

Ausente e distante. Mas não desistente.

Aos leitores,

venho até o blog justificar minha ausência. Sim, tenho histórias para relatar. Não, não perdi a vontade de escrever. Sim, vou voltar a publicar. Só não estou conseguindo organizar.

Outros comprometimentos estão me impossibilitando de parar. O que posso dizer, neste momento, é que comemorei dois anos na área de saúde! E saúde mental. Tudo indica, sobrevivi. E, o melhor, fazendo bem feito. Tenho planos, projetos e novidades.

Voltarei para postar na hora que tiver de fazê-lo.

Obrigada desde sempre.

25 de dez. de 2010

Hipertensão x Alcoolismo

Na saúde pública, uma das questões mais preocupantes, são as doenças cardiovasculares que representam a primeira causa de morte no Brasil. Destes problemas do coração, muitos são consequências da hipertensão arterial. De acordo com o Ministério da Saúde, 35% da população brasileira, acima de 40 anos, sofre de hipertensão.

Conhecida como "pressão alta", a doença é tida como traiçoeira porque não apresenta, necessariamente, sintomas. Dependentes de álcool são alvo fácil, já que o excesso de etanol prejudica o bom funcionamento dos órgãos, e o consumo de sal durante as "bebedeiras" (petiscos, churrascos e antepastos), piora o quadro clínico.

Atendo pacientes alcoolistas que sofrem de hipertensão arterial. Um deles, é o Sr. Norberto (nome trocado). Sua pressão é sempre verificada e houve um curto período no qual ele ficou abstinente, mas a aferição mostrava 16x10. Tudo indicava que, apesar de não estar fazendo uso do álcool, ele não estava se medicando para o controle da pressão. Questionado, ele confessou que não estava tomando seu remédio. Após orientação e consentimento, foram agendadas as consultas de rotina para as próximas semanas.

O paciente faltou no psiquiatra. Faltou no grupo terapêutico. Faltou na enfermagem. Faltou no clínico. Faltou na oficina de atividades... Eis que, um dia, ele aparece na unidade, alcoolizado e bastante animado:

- Ô minha princesa!
- Ai, Sr. Norberto...
- Você não é uma princesa?
- Por favor, Sr. Norberto!

E saí "de fininho" para que a recepção o atendesse. Quando retorno, minha colega da recepção explica a situação, que é uma constante em meu trabalho: o paciente tem recaída, perde as consultas e volta querendo retomar o tratamento. Mas, para isso, ele precisa passar primeiro... pela enfermagem. Prontuário do paciente na mão e lá vou eu.

- Sr. Norberto!
- Oh, quem me chama? É minha princesa?
- Para com isso! Senta aqui pra mim, por favor.
- Vou contar a história da minha vida para você agora.
- Não, Sr. Norberto. Espera um pouco, deixa eu falar.
- Deixo desde que me deixe. Hahaha!
- O senhor teve recaída, deixa eu ver... pela terceira vez, Sr. Norberto. Esta última foi quando?
- Uma semana. Fazer o quê? A vida nos leva para condições estranhíssimas... que estão longe do nosso controle.
- Falando em controle, o senhor não deve fazer uso de bebida alcoólica. O senhor é hipertenso, toma remédios, está em tratamento para dependência...
- Não estou tomando remédio.
- E eu não sei!? Se o senhor estivesse tomando todas as suas medicações direitinho, não teria tantas recaídas. O senhor toma o remédio como bem quer, quando quer, não pode... Precisa dar uma chance pro tratamento, Sr. Norberto.
- Tá bom.
- Senta naquela cadeira pra eu aferir sua pressão.
- Hummmm... Aferirrrrrrr!
- Não tem graça.
- Seu perfume é como um campo de flores!
- Fica quietinho agora, senão, não ouço nada.
- Pssst!
- Mas é muito sortudo... Deu 12x8.
- Deu 12x8 porque você é maravilhosa!
- O que o senhor fez?
- Vim te ver!
- Para com isso. É muito sério, Sr. Norberto. O que o senhor fez?
- Eu tomo o remédio da pressão.
- Está tomando desde quando?
- Pra poder beber, há uma semana!

E, assim, muitos pacientes alcoolistas que estão em tratamento - e usuários de outras drogas também - vão administrando a dependência química e o uso das medicações: contando pequenas mentiras e omitindo informações cruciais, na tentativa de engabelar o profissional de saúde.

Na mentalidade do Sr. Norberto, tomando o hipotensor - a medicação que baixa a pressão - ele pode, então, beber à vontade. Uma lógica imaginativa que ele criou para enganar a si próprio. Como se sua saúde fosse um joguete, Sr. Norberto brinca com suas artérias como brinca comigo.

Notas relevantes (mercado das drogas)

Preço base das drogas na capital de SP:
  • Cocaína - 1 pino (quatro carreiras) - $ 10
  • Crack - 1 pedra (duas cachimbadas) - $ 5
  • Maconha - 1 baranga (três cigarros) - $ 5

23 de abr. de 2010

Realmente cômico

Era o primeiro atendimento de enfermagem ao Sr. Israel (nome trocado), um senhor de 65 anos, magro, estatura baixa, nariz adunco, barba por fazer, semicalvo e desaparelhado de todos os dentes. O corpo, inquieto, exalava um constante e marcante odor senil. Ex-alcoolista, queria agora se livrar da dependência da maconha. Só consegue dormir se usar a erva.

No primeiro momento do atendimento, formalidades. É perguntado onde mora, com quem e o que faz, por exemplo. Sr. Israel valoriza as respostas, floreando-as, "moro há 65 anos aqui! todo mundo gosta de mim!". Depois, é perguntado sobre os vícios, tratamentos, internações, "nunca entrei em um hospital!". Certo, certo.

Ele é também tabagista, apresenta tosse produtiva, problemas precoces na audição, na visão, a memória falha várias vezes e não faz exames laboratoriais há tempos. Só após muita conversa é que se revelou um pouco, além do evidente desleixo pessoal, digno de nota. A enfermeira me incumbe de abordar esta questão e tento encontrar as motivações dele para não se cuidar um pouco mais:

- Sr. Israel, e banho?
- Que é que tem?
- O sr. toma?
- Tomo.
- Quando foi a última vez?
- Ah, não! Banho de chuveiro, assim? Não, não...
- Não, não?
- Não. Meu banho é de chuva.
- De chuva?
- É. Com a água da chuva. Natural.
- Mas como o sr. tira a sujeira e a gordura do corpo no banho de chuva?

- Esfregando com a mão.
- E o sabonete, Sr. Israel?
- Sabonete? Nunca mais eu uso sabonete! Foi o sabonete que me deixou assim, ó! (Aponta para a parte de cima da cabeça e gira o dedo onde está a careca)
- Sr. Israel, pelo amor de Deus, o banho com sabonete é importante!
- Só com água da chuva e sem sabonete.
- E se for sabão de coco?
- Vou pensar. Sabão de coco é bom.
- E os dentes, Sr. Israel? O que acontec...
- Mandei arrancar tudo!
- Mandou arrancar tudo? Por quê?
- Ah, dava muito trabalho, eu sentia dor...
- E os alimentos, Sr. Israel? O sr. não pensou nisso, na mastigação?
- Não tenho problema nenhum. Vou chupando, amassando. Como tudo bem amassadinho.
- Sr. Israel, não pode...
- 'Tô bem melhor assim.
- Sabia que o seu emagrecimento pode ter sido causado pela falta dos dentes? O sr. nem pensa em providenciar próteses dentárias?
- O quê? Dente pra quê? Pra ficar sorrindo? Ai, ai... Me filma que 'tô sorrindo!

Após as orientações, as condutas e os agendamentos, Sr. Israel explica que nunca lhe faltou dinheiro e me mostrou várias notas de R$ 20. Desenhou o perfil de meu rosto no papel, me presenteou e foi embora, dizendo que iria se encontrar com a namorada (!).

Parece cômico...

É rara a necessidade de minha ajuda na recepção do CAPS. Mas, às vezes, dou uma força. Nestes momentos, acontecem diálogos como este:

- Oi. (paciente chegando)
- Oi, bom dia. (eu)
- O médico.
- Qual médico, por favor?
- Não sei.
- Você já é paciente daqui?
- Acho que já.
- Empresta aquele cartão do CAPS, por favor.
- Que cartão?
- Aquele cartãozinho branco, de agendamentos.
- Ah, perdi.
- E o do SUS?
- 'Tava junto quando perdi o outro.
- Tudo bem. Você veio por qual razão?
- Pra ver o médico.
- Entendi. E você está se sentindo mal agora? Ou é uma consulta?
- Não.
- Não está se sentindo mal?
- Não.
- E você não lembra se tem consulta?
- Não.
- Tudo bem. Você veio falar com o clínico ou o psiquiatra?
- Não lembro.
- Qual seu nome? (Silêncio). O seu documento de R.G. não está aí com você não, né?
- Não.
- Como você se chama?
- É... é... Antônio. (nome trocado)
- Antônio, por favor, me dá seu sobrenome pra eu encontrar seu cadastro aqui no CAPS e descobrir sua situação conosco.
- É... é...

10 de abr. de 2010

Notas importantes (saúde mental)

  • Em psiquiatria, o alcoólatra é um adorador do álcool, e não - necessariamente - um viciado; a este se dá o nome de alcoolista, que faz uso abusivo da substância. E drogado é um termo depreciativo, assim como viciado; quem usa múltiplas drogas é usuário ou dependente. Aprendi a usar também o termo tabagista, mais preciso que fumante.
  • Outra elucidação, resumidamente, é sobre a escala de envolvimento e continuidade: uso experimental (curiosidade, aproximação e conhecimento); uso recreacional (eventual, de ocasião, socialmente); uso abusivo (padrões problemáticos na vida pessoal, familiar e social, vício); e dependência química (física ou psíquica, o usuário possui sintomas de abstinência quando não usa).