28 de ago. de 2012

Composição dos produtos escrita em inglês

Há tempos venho notando que diversos produtos cosméticos e de higiene pessoal estão vindo com a composição dos produtos escrita em inglês nos rótulos. Sei que vivemos em um mundo de cultural global, onde quase todos se comunicam em diversos outros idiomas. Só não entendo por qual razão somente esta fundamental informação vem em língua estrangeira na embalagem. E, estando no Brasil, por quê sou obrigada a ler as informações de composição dos produtos que consumo em língua estrangeira? Por meio do site Reclame Aqui, obtive o rápido retorno de três grandes empresas do setor.

Seguem abaixo as respostas:

Resposta da Procter & Gamble
Prezado (a) Consumidor (a),  agradecemos seu relato nos contando a recente experiência que teve com a P&G.  Ficamos imensamente felizes por ter escolhido nossas marcas para fazer parte do seu dia a dia. Para que possamos entender melhor o que aconteceu, pedimos que, por favor, entre em contato com o nosso Serviço de Atendimento ao Consumidor através dos telefones informados abaixo, ou, se preferir, envie-nos um e-mail pelo nosso site: www.procter.com.br . Se sua experiência estiver relacionada a algum de nossos produtos, por gentileza, interrompa seu uso e reserve-o junto à embalagem.  Produtos P&G: 0800-701-5515  Produtos Gillette: 08000-11-5051 Produtos Wella: 0800-701-9276  Produtos Olay: 0800-724-0221 Produtos Eukanuba: 0800-177-321
Atenciosamente,
Serviço de Atendimento ao Consumidor P&G.

Resposta da Johnson & Johnson
Em relação à reclamação da Sra. Cinira, informamos que entramos em contato com ela e fornecemos as explicações a respeito do assunto.  Continuamos à disposição caso necessitem de esclarecimentos adicionais. 
Atenciosamente, Central de Relacionamento com o Consumidor Johnson & Johnson do Brasil
0800 703 63 63

Resposta da Unilever Higiene e Beleza
Prezada Senhora,
Agradecemos a mensagem recebida através do site Reclame Aqui. Uma funcionária do SAC Unilever entrou em contato com a consumidora Cinira e explicou para ela a nomenclatura INCI (International Nomenclature of Cosmetic Ingredient - Nomenclatura Internacional de Ingredientes Cosméticos).
Atenciosamente,
Unilever Higiene e Beleza.
Unilever Brasil
0800-707-7512
sac@atendimentounilever.com.br 
Unilever Brasil
0800-707-7512
sac@atendimentounilever.com.br

Tudo foi resolvido do ponto de vista do atendimento, que foi excelente. Procuraram-me, interessados, deram explicações e me orientaram. Disseram que a ANVISA determinou por lei, em 2005, que a composição dos produtos seria escrita em inglês, "porque seria melhor assim para eles". Ponderei às três empresas dizendo que milhares de brasileiros não entendem inglês e, hipoteticamente, se um consumidor  tiver alergia a algum componente da fórmula no cosmético, como ele vai checar isso se ele não entende outro idioma? Expliquei que eu, particularmente, entendo outras línguas e que não estou fazendo a reclamação pensando somente em mim. Enviei um email pra ANVISA, conforme fui orientada, porque não fiquei satisfeita com os argumentos. 

Eis aqui a resposta da ANVISA:
Prezada senhora,
a composição dos produtos cosméticos no rótulo deve ser descrita na nomenclatura INCI, visto que existem mais de 12 mil ingredientes utilizados em produtos cosméticos e muitos possuem, além da denominação química, mais de um nome comercial, a nomenclatura INCI permite designar de forma única e simplificada a composição dos ingredientes no rótulo dos produtos cosméticos. Dessa forma, o objetivo do uso da nomenclatura INCI é facilitar a identificação de qualquer ingrediente, proveniente de qualquer país, por ser uma codificação universal, com um sistema para todos os países sem distinção de idioma, caracteres e alfabeto. Logo, a nomenclatura INCI é adotada mundialmente e não se trata de um idioma específico. O emprego da nomenclatura INCI permite que o consumidor identifique, de forma mais clara, os ingredientes de uma formulação em qualquer lugar do mundo. Além disso, devido à grande diversidade de sinônimos relacionados a um único ingrediente, os erros de interpretação na leitura de componentes podem ser minimizados. 

Fiquei confusa com as expressões "codificação universal""sem distinção de idioma" e "não se trata de um idioma específico". Estou questionando justamente a utilização de um único idioma: o inglês. A distinção é gritante. E global é diferente de universal. Quem determinou que a língua inglesa é universal desconhece a existência de outros habitantes do planeta Terra que não fazem parte de seu enorme círculo particular. 

Pois então, ficou claro, como respondeu uma das empresas que contatei, "é melhor assim para eles", ou seja, para a comunidade científica. Parte-se do princípio que consumidores do mundo inteiro leem, ou melhor, entendem inglês. E também que todos os consumidores do mundo inteiro são verdadeiros mochileiros. Afinal, a ANVISA justifica que "o emprego da nomenclatura INCI permite que o consumidor identifique os ingredientes de uma formulação em qualquer lugar do mundo"

Na minha opinião, isso não favorece o consumidor brasileiro. O protocolo de atendimento está salvo nos dados de procedimento no site da ANVISA e gravei a avaliação sobre minha reclamação como "ruim".

10 de jun. de 2012

A popularização das doenças mentais e a banalização dos termos psiquiátricos

Na reta final do curso técnico de enfermagem, pelo TECSAÚDE (oferecido pelo governo do estado de São Paulo em 2010), uma das professoras solicitou aos alunos um trabalho de conclusão de curso. Resolvi fazer um artigo abordando a popularização das doenças mentais e, consequentemente, a banalização dos termos psiquiátricos. Segue abaixo meu TCC. Achei oportuno publicá-lo aqui, já que o tema está - novamente - em voga, devido ao crime cometido pela prostituta de luxo, advogada e técnica de enfermagem, Elize Araújo Kitano Matsunaga, que confessou ter matado e esquartejado o próprio marido. 


A POPULARIZAÇÃO DAS DOENÇAS MENTAIS E
A BANALIZAÇÃO DOS TERMOS PSIQUIÁTRICOS

Por meio do "telediagnóstico", uso vulgar de palavras da psiquiatria rotula indivíduos
  
Objetivo: Analisar as razões pelas quais pessoas comuns utilizam termos da psiquiatria e esclarecer estes termos
Métodos: Pesquisas na internet, livros, revistas e jornais com assuntos pertinentes ao tema
Título: A popularização das doenças mentais e a banalização dos termos psiquiátricos
Motivação: Entrevista concedida pelo psiquiatra forense Daniel Martins de Barros à Folha de S.Paulo
Palavras-chave: psiquiatria forense, doença mental, telediagnóstico, termos psiquiátricos
  
O objetivo deste artigo é analisar as razões pelas quais pessoas comuns utilizam termos da psiquiatria para “diagnosticar” suspeitos, criminosos e pessoas de seu convívio, como também esclarecer que a utilização indevida dos nomes das doenças psiquiátricas pode induzir ao erro e à injustiça. Serão abordados e analisados o uso leviano de termos como “esquizofrênico”, “psicopata”, “surtado” e “bipolar”, recorrentes tanto na televisão quanto no nosso dia-a-dia.

Interessei-me pelo assunto, a partir da leitura da entrevista concedida pelo psiquiatra forense Daniel Martins de Barros, do núcleo do Instituto de Psiquiatria da USP, ao jornal Folha de S.Paulo em 17/07/2010. Ele explica como a banalização dos termos psiquiáticos acontece, “você vê uma cena na TV e fala que o cara é psicopata. É tratar o diagnóstico de forma muito leviana”, vem daí o “telediagnóstico”. Esta aproximação da psiquiatria com o sensacionalismo dos programas televisivos policiais e novelas que abordam transtornos mentais, contribuem para sua popularização.

De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria, atualmente, existem no Brasil cerca de 23 milhões de pessoas (12% da população) com algum tipo de necessidade de atendimento em saúde mental. Aproximadamente, cinco milhões destes brasileiros sofrem de algum transtorno mental grave.  Em todo o mundo, são mais de 400 milhões de pessoas afetadas por algum distúrbio mental ou comportamental.

Saber desta realidade é fundamental para encontrarmos, cada vez mais, uma melhor resolução e condução no alívio e tratamento destas pessoas. Mas para além dos números, temos uma parcela da sociedade que ainda enxerga de forma preconceituosa e ignorante estes doentes. A começar pela maneira quando usamos certos termos, de forma pejorativa,  ao querermos ofender alguém o chamando de “louco”, “retardado”, “débil mental” e, lembrando das palavras mais atuais, “esquizofrênico”, “psicopata”, “surtado” e “bipolar”.

Já que a televisão populariza expressões de uma maneira vulgar e uma parte da sociedade as dissemina sem saber corretamente o que está proferindo, o presente artigo pretende dirimir qualquer dúvida em relação a estes termos psiquiátricos, buscando a adequação de seu uso e evitando inconveniências.

Conforme a Associação Brasileira de Psiquiatria alerta, são mais recorrentes ainda as doenças ligadas à depressão, ansiedade e transtornos de ajustamento. Mas como estamos lidando com 3% da população brasileira que sofre, principalmente, de esquizofrenia e transtorno bipolar, penso ser urgente o esclarecimento sobre estes últimos temas.

Novelas, filmes, seriados. Em qualquer enredo, quase sempre há um personagem que desestrutura uma situação, tornando tudo mais caótico e, portanto, mais “interessante” de se assistir ou ler. De fato, uma história sem algum conflito é desestimulante. Quando assistimos ao noticiário, também damos mais atenção aos crimes hediondos e nos horrorizamos com a realidade. Estamos falando de nossa condição humana, natural e inerente, que – civilizada ou não – é impulsionada por sentimentos e sensações.

Personagens de novelas ganham popularidade devido às maldades que cometem; enredos nos prendem porque queremos saber o final daquele enganador e assistimos ao programa de televisão até o final, aguardando para ver qual será a punição daquele criminoso que ficou famoso por sua atrocidade.

Não investigarei aqui as razões ou questões psicológicas que levam o ser humano a dar atenção ao que se qualifica como “o mal”. Mas ao apresentar estes exemplos podemos começar a entender o por quê de muitas pessoas chamarem as outras por nomes que elas desconhecem verdadeiramente.

A novela, o livro, o cinema, como composições artísticas e literárias,  usam de forma mais apropriada os termos que cabem ao seu conteúdo. Mas, na maioria das vezes, programas televisivos sensacionalistas  começam a chamar um criminoso de “maníaco” – criando uma alcunha que será utilizada por toda a sua audiência. Esses programas, mais precisamente os ditos “policiais”, fazem isso com qual propriedade técnica? Havia um profissional da psiquiatria na redação ou no estúdio que diagnosticou o criminoso em questão de minutos? Proferir os termos psiquiátricos desta maneira é uma irresponsabilidade porque leva o espectador a vulgarizar o que é preciso compreender com uma certa qualidade técnica. Como disse o psiquiatra forense, Daniel Martins de Barros, ao jornal Folha de S.Paulo, “rotular suspeitos não ajuda a resolver crimes bárbaros”.

O conceito dos termos mais usuais elucidam e mostram a importância de se conhecer a definição de determinadas sentenças técnicas, específicas de uma área profissional, devido sua complexidade. Vamos discorrer sobre as seguintes palavras: bipolar, esquizofrênico, psicopata e surtado.


BIPOLAR

O transtorno bipolar do humor ou transtorno afetivo bipolar, também conhecido como distúrbio bipolar, é uma doença caracterizada por episódios repetidos ou alternados, de mania e depressão. Uma pessoa com transtorno bipolar está sujeita a episódios de extrema alegria, euforia e humor excessivamente elevados (hipomania ou mania) e também a episódios de mau humor e desespero (depressão). Entre os episódios, é comum que passe por períodos de normalidade. Deve-se ter em conta que este distúrbio não consiste apenas de meros "altos e baixos". Altos e baixos são experimentados por praticamente qualquer pessoa, e não caracterizam, necessariamente, um distúrbio. As mudanças de humor do distúrbio bipolar são mais extremas que aquelas experimentadas pelas demais pessoas. O doente de distúrbio bipolar é também comumente chamado de "maníaco-depressivo" por alguns psiquiatras do século XX, não sendo utilizado por  psiquiatras mais modernos. A natureza e duração dos episódios variam grandemente de uma pessoa para outra, tanto em intensidade quanto em duração. No caso grave, pode haver risco pessoal e material. A doença pode se manifestar em crianças, porém, se manifesta em grande parte em adultos, por volta dos 15 a 25 anos. As fases maníacas caracterizam-se também pela aceleração do pensamento (sensação de que os pensamentos fluem mais rapidamente), distraibilidade e incapacidade em dirigir a atividade para metas definidas (embora haja aumento da atividade, a pessoa não consegue ordenar as ações para alcançar objetivos precisos) e, quando em seu quadro típico, prejudicam ou impedem o desempenho profissional e as atividades sociais, não raramente expondo os pacientes às situações embaraçosas e aos riscos variados (dirigir sem cuidado, fazer gastos excessivos, indiscrições sexuais, entre outros riscos). Em casos ainda mais graves, o paciente pode apresentar delírios (de grandeza ou de poder, acompanhando a exaltação do humor, ou delírios de perseguição, entre outros) e também alucinações, embora mais raramente. Nesses casos, muitas vezes, o quadro clínico é confundido com a esquizofrenia. Nem sempre os sintomas maníacos ou depressivos são bem claros. Até quem convive com um bipolar sente dificuldades em distinguir uma aflição comum de uma depressão ou uma alegria de uma euforia. A doença é de difícil diagnóstico, mesmo para profissionais da saúde que acompanhem há um longo tempo o paciente. Porém, após diagnóstico positivo, saber se está ou não em surto, é uma dificuldade constante.

ESQUIZOFRÊNICO

A esquizofrenia é um transtorno psíquico severo que se caracteriza classicamente pelos seguintes sintomas: alterações do pensamento, alucinações (visuais, cinestésicas, auditivas), delírios e alterações no contato com a realidade. Junto da paranoia (transtorno delirante persistente) e dos transtornos graves do humor (a antiga psicose maníaco-depressiva, hoje fragmentada em episódio maníaco, episódio depressivo grave e transtorno bipolar), as esquizofrenias compõem o grupo das psicoses. É hoje encarada, não como doença no sentido clássico do termo, mas sim como um transtorno mental, podendo atingir diversos tipos de pessoas, sem exclusão de grupos ou classes sociais. De acordo com algumas estatísticas, a esquizofrenia atinge 1% da população mundial, se manifestando habitualmente entre os 15 e 25 anos, nos homens e nas mulheres, podendo igualmente ocorrer na infância ou na meia-idade. Algumas pessoas acometidas da esquizofrenia se destacaram e se destacam no meio acadêmico, artístico e social. Um exemplo famoso é o do matemático norte-americano John Forbes Nash que, apesar do desafio de conviver por toda a vida com os sintomas psicóticos típicos, foi um intelectual importante e deixou grandes contribuições às áreas de economia, biologia e teoria dos jogos.  A persecutoriedade (se sentir perseguido por algo ou por alguém) é uma convicção profunda para este sujeito que não aceita outras causas por mais óbvias que estas sejam. O esquizofrênico também sempre acha que parte de seu corpo não está bem, não está funcionando corretamente ou ainda que algum órgão esteja falindo ou faltando. Muitas vezes esses órgãos estão relacionados ao coração, pulmão, rim, fígado ou baço. A sistematização do delírio é frequente, porém o esquizofrênico delirante paranoide é o que apresenta menor deteriorização de sua personalidade. É comum relacionar-se bem com as outras pessoas, ter respostas afetivas próximas do normal e processo de pensamento e cognição preservados. O distúrbio esquizofrênico fica mais evidente quando o paciente é confrontado com o assunto que é emocionalmente significativo para ele ou quando é posto à prova por meio de testes de personalidade ou testes projetivos. De modo geral, as pessoas que convivem com o esquizofrênico somente reconhecem os problemas quando a pessoa tenta explicar suas crenças sobre seu corpo ou sobre as perseguições a que se sente submetido.

PSICOPATA

A psicopatia, também conhecida como sociopatia, tem sido associada ao protótipo do assassino em série, porém, nem todos os assassinos são psicopatas e nem todos os psicopatas chegam a ser assassinos ou fisicamente violentos. Importa desmistificar esta ideia, porque podemos estar lidando diariamente com um psicopata, sem termos a noção que aquela pessoa está realmente doente. Há pessoas que só percebem que está de perto com um psicopata, momentos antes de uma fatalidade lhes acontecer, nomeadamente um homicídio, por exemplo. Embora esta doença seja mais comum nos homens, também é possível encontrar mulheres sociopatas. Os primeiros sinais começam a se tornar mais evidentes a partir dos 15 anos de idade. A rigor, a psicopatia é um distúrbio mental grave caracterizado por um desvio de caráter, ausência de sentimentos genuínos, frieza, insensibilidade aos sentimentos alheios, manipulação, egocentrismo, falta de remorso e culpa para atos cruéis e inflexibilidade com castigos e punições. Embora popularmente a psicopatia seja conhecida também como "sociopatia", cientificamente, a doença é denominada como sinônimo do diagnóstico do transtorno de personalidade antissocial. A psicopatia parece estar relacionada a algumas importantes disfunções cerebrais, sendo importante considerar que um só único fator não é totalmente esclarecedor para causar o distúrbio; parece haver uma junção de componentes. Embora alguns indivíduos com psicopatia mais branda não tenham tido um histórico traumático, o transtorno – principalmente nos casos mais graves, tais como sádicos e serial killers – parece estar associado à mistura de três principais fatores: disfunções cerebrais/biológicas ou traumas neurológicos, predisposição genética e traumas sociopsicológicos na infância (como abuso emocional, sexual, físico, negligência, violência, conflitos e separação dos pais etc). Todo indivíduo antissocial possui, no mínimo, um desses componentes no histórico de sua vida, especialmente a influência genética, entretanto, nem toda pessoa que sofreu algum tipo de abuso ou perda na infância irá se tornar uma psicopata sem ter uma certa influência genética ou distúrbio cerebral; assim como é inadimissível afirmar que todo psicopata já nasce com essas características. Portanto, a junção dos três fatores torna-se essencial. Há de se considerar desde a genética, traumas psicológicos e disfunções no cérebro (especialmente no lobo frontal e sistema límbico).

SURTADO

Surto psicótico é um episódio de dissociação da estrutura psíquica do indivíduo, fazendo com que este mostre comportamentos socialmente estranhos e diferentes, devido à momentânea incapacidade de pensar racionalmente. Os surtos são comuns na esquizofrenia e podem ocorrer da fase maníaca aguda do transtorno bipolar. Também podem ocorrer devido às substâncias psicoativas, como álcool, anfetamina, cocaína, crack, etc. Durante o surto, podem ocorrer manifestações de paranoia, alucinações e delírios. O surto geralmente dura algumas semanas e pode ser encurtado de acordo com a medicação administrada. A medicação também pode impedir um surto ou torná-lo menos grave quando ocorrer. Normalmente, o surto é precedido por comportamentos estranhos do indivíduo, que só podem ser detectados poucos dias antes que este entre em crise. Sendo assim, é muito importante acompanhar pacientes nesta situação a fim de medicá-los antes. Segundo o DSM IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), um dos sintomas para se diagnosticar esquizofrenia é a duração do surto de, no mínimo, seis meses. Delírios, alucinações, comportamento desorganizado e discurso desorganizado são sintomas obrigatórios, devendo estar presentes pelo menos dois destes para classificar o estado como um surto psicótico. Os psicólogos apresentam uma diferenciação entre delírios e alucinações, conceitos que são constantemente confundidos. Delírios são alterações do pensamento que se caracterizam por ideias que não condizem com a realidade objetiva, enquanto que alucinações envolvem sempre algum órgão senso-perceptivo, como a audição, a visão, o tato, o olfato e a sinestesia (sensações internas). Elas não são invenções – a pessoa realmente está vendo, ouvindo ou sentindo algo. Ou seja, o primeiro ocorre na mente e o segundo atinge os sentidos. Do ponto de vista psiquiátrico, o surto psicótico está relacionado a uma distorção dos neurotransmissores, ou seja, das substâncias químicas produzidas pelos neurônios e que são responsáveis pelo envio de informações a outras células. O pensamento tem um curso e um conteúdo: quando o conteúdo do pensamento está desagregado, ele perde conexão com a realidade ou a distorce, passando a ser um sintoma de surto psicótico.

A pesquisa acerca das definições e dos conceitos psiquiátricos revela a necessidade de que se pare de usar os termos técnicos das doenças mentais de forma leviana e indiscriminada. Como foi visto, a abrangência e profundidade do assunto deveria despertar a respeitabilidade dos programas televisivos e do público leigo que se apropriam indevidamente daquilo que desconhecem.

Como esclarece o psiquiatra forense Daniel Martins de Barros, na entrevista concedida à Folha de S. Paulo, há uma tendência de querer considerar crimes ou comportamentos inadequados como fruto de uma alteração psíquica. Diz ele, “a sociedade tenta buscar nas ferramentas médicas a solução para isso”. A banalização da psicopatologia reduz a complexidade e as múltiplas causas de um crime ou de uma ação comportamental não esperada.

A problemática da popularização das doenças mentais e da banalização dos termos psiquiátricos está também no estereótipo que é, fundamentalmente, fruto do preconceito. Rotular um indivíduo com doença mental é um hábito do senso comum. Mesmo assim, o preconceito não impossibilita a inclusão desse grupo na sociedade. Hoje há espaço e possibilidades – mesmo que pequena – ao reconhecimento do doente mental como cidadão pleno de direitos e deveres. A falta de informação e do comprometimento dos setores governamentais contribuem para que os portadores de transtornos mentais sejam vítimas desta ignorância. De algumas décadas para cá, aconteceram mudanças positivas que, aos poucos, estão tranformando a atual realidade. Os médicos se esforçam para mudar a forma como o doente mental é visto e tratado.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem uma campanha de desestigmatização dos doentes,  mas apesar de todo o progresso conseguido em muitos outros aspectos de saúde, a saúde mental ainda não recebe a atenção e os recursos que mereceria. Na tentativa de aproximar as pessoas da questão da doença mental, a OMS declarou no dia 10 de outubro de 2001, o Dia Mundial da Saúde Mental, para sensibilizar o público em geral e provocar mudanças relevantes na posição pública acerca do tema. A ideia é despertar a atenção e a melhoria dos cuidados de saúde mental. Quase uma década se passou da criação da data, mas – lamentavelmente – parece que as pessoas continuam a lidar com o assunto sem a seriedade que lhe cabe.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARROS, Daniel Martins de. O que é Psiquiatria Forense. Editora Brasiliense. 2008.
MATTOS, Virgílio de. Crime e Psiquiatria, uma saída: preliminares para a desconstrução da medida de segurança. Editora Revan. 2006.
MURTA, Genilda Ferreira. Dicionário Brasileiro de Saúde. Difusão Editora. 2007.
RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. Saúde mental no Brasil. Editora Arte & Ciência. 1999.

REFERÊNCIAS DE INTERNET 
11 de outubro de 2010

26 de mai. de 2012

Um rápido balanço

Eis que, em junho, completarei quatro anos de meu ingresso na área da saúde, sendo mais de dois deles, atuando profissionalmente na enfermagem, especialmente, em saúde mental. Passou mais ligeiro do que imaginei e tomei atitudes mais inesperadas do que planejei, como por exemplo, estudar uma faculdade de enfermagem, iniciada neste ano. É interessante voltar à faculdade depois dos 30. Na verdade, eu diria que é muito melhor. Hoje sei que sou mais enfermeira do que jornalista. Mas uma profissão não exclui a outra: continuo gostando de escrever, sentindo necessidade de expressar-me por meio das letras e acho que isso nunca sairá de mim. Mas o balanço que quero fazer é sobre o que vi e ouvi na enfermagem até agora. 

Nos locais onde trabalhei e nos diversos serviços de saúde por onde percorri, encontrei excelentes profissionais da saúde, mas também, uma enfermagem cansada. Infelizmente, jovens ou veteranos da enfermagem estão fatigados. Inúmeras razões levam auxiliares, técnicos e enfermeiros a concluírem seus cursos, mas a maioria não está, de fato, muito preocupada em cuidar do outro. Aliás, esta divisão hierárquica entre os profissionais de enfermagem, ocorrida nos anos 50/60, mais atrapalhou do que ajudou. Compartilho da mesma opinião de minha professora da disciplina de História do Cuidar: somos todos enfermeiros e pronto. Observando bem, ninguém grita assim, "auxiliar de enfermaaaagem!" ou "técnico em enfermaaaagem!". O que se ouve é, "enfermeeeeeiraaaaa!".

Pessoas estudam para serem auxiliares e técnicos em enfermagem porque o curso dura um ano, porque tem uma escola a cada três quarteirões, porque se trabalha 06 horas por dia para ganhar uma média líquida inicial de $1.300 (não menos que isso), porque o marido mandou, porque a mãe é enfermeira, porque a vizinhança toda trabalha em hospital, porque o profissional usa roupa branca, porque basta ter o ensino médio (resolvido com um supletivo, se for o caso). Muitos dos veteranos permaneceram somente com o curso de auxiliar e não se interessaram em dar continuidade aos estudos ou buscar uma reciclagem. Destes, também é possível contar nos dedos os que realmente atuam por vocação. E mesmo os vocacionados estão exaustos. Raras foram as vezes em que ouvi, "eu gosto de cuidar do outro". E existem aqueles que estudam uma faculdade de enfermagem por uma razão bastante inóspita: não querem mais "ficar lavando bunda de paciente". Sim, eu realmente ouvi isso. E não foi só uma vez.

Meu exame aqui é quanto à conduta e ao compromisso ético com a prática de saúde. Do pouco que experimentei, com meu olhar novato, porém, entusiasmado, ficou nítido que a enfermagem brasileira está passando por uma nebulosidade que já dura bastante tempo e precisaria (urgente) passar por uma reforma. Há também uma contradição entre o que se fala e o que se faz. Na teoria, tudo é muito correto. Na prática, predomina o jogo do sistema no qual é preciso "entrar no esquema". Esquema este que fiz questão de não participar e, por isso, perdi meu último emprego. 

Algumas pessoas ingressam na enfermagem por motivações fortuitas e não dá para entrar nesta área sem gostar, essencialmente, de gente. Mas tenho visto exatamente o contrário e será com isso que terei de conviver, até encontrar o meu real lugar no mercado de trabalho. Você pode até não gostar de determinados setores, como geriatria, UTI, psiquiatria, pronto-socorro. Pode até não gostar de fazer alguns procedimentos, como punção, curativo, banho, etc. Mesmo assim, em todas as especialidades e em qualquer atendimento, um profissional atuante em enfermagem, vai ter de enfrentar e assumir o paciente/cliente em algum momento: seja conversando ou só fazendo companhia, o ouvindo ou orientando, seja dando banho ou não, esteja o profissional para se aposentar ou tenha chegado agora no mercado. Certas falas de alguns profissionais da enfermagem evidenciam o descompromisso: "este não é meu andar", "este não é meu paciente", "isto não é comigo", "quem mandou você vir falar comigo?", "não sou eu quem vê isso", "já estou de saída". São respostas resvaladiças em que o funcionário inconsequente não quer se responsabilizar por nada. Esta atitude hostil é contagiosa e atinge - não só o usuário do serviço, que sai prejudicado em todos os níveis - mas a equipe (que não vê outra alternativa, a não ser agindo igual) e entusiastas, como eu. 

No meu último emprego sofri bullying. Sim, é risível. Mas é a pura verdade. Verdade também que eu, com minha franca inexperiência e minha ingênua dedicação, acabei trocando os pés pelas mãos e não soube "ser política" nem ter jogo de cintura. Mas essa minha "ingenuidade crônica" (expressão que uma amiga usou sobre mim, certa vez) foi - definitivamente - embora, depois do que vivenciei. Existem características que permeiam meu perfil profissional, independentemente da área em que atuo: possuo excelente nível de diálogo, inteligência emocional desenvolvida, meu desempenho é reconhecido pela competência, dedicação e organização, tenho uma personalidade precavida e prevencionista. Coleto informações, pesquiso o antes e o agora, me interesso, busco um sentido nas coisas que facilite a compreensão do momento presente e me dê os passos para prevenir futuros sofrimentos. Contribuo para melhorias, opino sobre o que não deu certo e ofereço novas ideias. Sobretudo, se for para fazer algo mal feito, nem começo. E mais, no caso da enfermagem principalmente, o bem do paciente/cliente vem antes dos meus interesses. Sou daquelas que para o que está fazendo para dar atenção, que fica mais alguns minutos além do expediente se for preciso e não sossego enquanto a pessoa não ficar, de alguma forma, satisfeita.

Como acolher uma profissional, com este elevado grau de comprometimento, em um serviço contaminado por velhos hábitos adquiridos, atrelado ao atendimento de balcão (mesmo existindo diretrizes na saúde pública que reprovem isso), partilhado por uma equipe mais interessada em dar gargalhadas na copa (enquanto uma mãe chorosa aguarda atendimento na sala de espera)?. "Não vai dar, gente, esta moça vai dar problema aqui", "ela vai atrapalhar", "precisamos agir logo", "os pacientes estão começando a gostar dela", "quem ela pensa que é?". Sou a ameaça. Sou o perigo, que vai abalar aquela estrutura de atendimento tão cuidadosamente instalada e que está "indo muito bem do jeito que está". Trabalhar direito, neste caso, significa fazer a incompetência do outro aparecer. Afora isso, os colegas mais preparados e mais afetuosos (mas não menos ardilosos!), tentam me consolar dizendo ser tudo fruto de inveja. E existem aqueles que também me admiram verdadeiramente, mas ficam apreensivos com o envolvimento ao me darem algum apoio. A vida corporativa não é fácil, mas julguei que, na enfermagem, havia uma meta em comum imprescindivelmente superior. Constatei que não é exatamente assim que funciona e que pouco poderei fazer para transformar esta gigantesca realidade. Aliás, o setor de recursos humanos de algumas empresas ignora a saída repetida de funcionários como um mal indício e não busca averiguação.

Por fim, desde quando comecei a estudar enfermagem, ouço falar na "desunião da classe". Eu, que estava iniciando na área, não queria acreditar nisso de maneira nenhuma. "Desunida por quê?", eu pensava. Não estamos todos com um mesmo objetivo final e que é a maior virtude de nosso ofício, de nossa profissão: cuidar bem do outro?. Não estamos todos estudando os mesmos fundamentos, as mesmas bases, os mesmos conceitos, os mesmos procedimentos para fazermos tudo todos juntos na pessoa em tratamento/recuperação? De onde vem esta desunião? Por quê aparece esta desunião? E acho que encontrei duas respostas: vaidade e medo. 

Mas agora, com licença, eu vou à luta. Porque meu desígnio na enfermagem é transcendental. Vou atrás de uma outra realidade, mais tangível: batalhar um novo emprego.

3 de fev. de 2012

Surto psicótico - Caso 02

Fábio (nome trocado), paciente do CAPS Adulto (de transtornos mentais), diagnosticado com esquizofrenia, estava fazendo uso de cola de sapateiro de uns tempos para cá. Sua referência em saúde mental o encaminhou para o tratamento de dependência química no CAPS Álcool e Drogas. Chegou à unidade sozinho. Enquanto ele se apresentava à recepção, eu usava o computador, no mesmo local. E observei. Alto, moreno claro, corpo atlético, cabelos castanhos bem curtos, olhos verdes, um belo sorriso, 33 anos. Muito asseado. Nas mãos, ele segurava o livro "O Guardião da Meia-Noite". "Quero doar este livro para vocês", disse. E foi orientado a colocar a doação na estante da pequena biblioteca. 

Em alguns instantes, ele seria atendido pela psicóloga, que pediu que a esperasse na sala de atendimento. O paciente aguardava calmamente. De repente, ouvimos um estrondo. A psicóloga desconfia que o som veio de sua sala e corre até lá. Acompanhei. O paciente Fábio está de pé, em frente à mesa, com os olhos vidrados e uma mancha vermelha na testa. A psicóloga pergunta, "o que foi isso, rapaz?". Ele responde, com um sorriso medonho, "estou verificando a qualidade". Ele havia dado uma cabeçada na mesa. Tensão. A psicóloga o adverte e pede que ele não faça mais isso. Diante das circunstâncias, ela solicita atendimento emergencial ao médico psiquiatra, que atende imediatamente. Fábio entrou na sala do médico e fechou a porta. Neste momento, pela primeira vez na minha rotina de trabalho, tive uma intuição realmente negativa. Medo.

Passados dois minutos, a porta da sala do psiquiatra se abre e o próprio, em voz alta, pede ajuda, "alguém venha aqui, olhe só, ele se defecou todo!". Nojo. Não sobrou um. Fiquei só eu ali, de pé, tentando entender o incompreensível. O psiquiatra, atordoado e nervoso, ao me ver, disse, "Cinira, leve ele ao banheiro. Olhe o estado que ficou isso aqui! Que presente de aposentadoria!". Desolação. Sim, era o último dia de trabalho do doutor, que estava se aposentando naquela data. E eu ainda tive a presença de espírito de tentar consolá-lo dizendo, "fica tranquilo, doutor, isso é sinal de boa sorte". Durante o atendimento psiquiátrico, o paciente defecou nas próprias calças. Sentindo-se incomodado com o volume que ficou ali depositado, resolveu eliminar aquela sensação de desconforto: introduziu sua mão dentro da cueca, retirou suas fezes e as jogou no chão e na parede da sala onde estava. Em 15 minutos, vivenciamos uma montanha russa de emoções.

Dirijo-me ao paciente, que agora está com o semblante desatinado e com as mãos sujas de fezes. Pensei comigo, "não diga nada, não pergunte nada, só o encaminhe e o oriente". Chamei, "Fabio, vem aqui comigo ao banheiro". "Não consegui controlar...", ele justifica. Aos poucos, as colegas foram reaparecendo: a auxiliar de limpeza, as psicólogas, a assistente social, recepcionista... Como na unidade não havia medicação de urgência, fui incumbida de levá-lo à Assistência Médica Ambulatorial (AMA), no prédio vizinho, onde ele seria medicado e encaminhado para uma avaliação em um pronto-socorro psiquiátrico. Mas minha intuição estava realmente muito negativa e senti que, a qualquer momento, o pior ainda viria.

Eu e o paciente aguardávamos o atendimento.  O AMA estava cheio de gente. Eu pensava, "ele pode fazer qualquer coisa, a qualquer momento". Sempre ao lado dele e conversando bastante, eu falava como se tudo fosse uma grande novidade, porque agora ele se comportava como uma criança travessa. Andando para lá e cá, perguntava coisas como, "isso aqui é um hospital?", "posso gritar?". Até chegar a hora dele me dizer, "preciso fazer cocô".

- Ali. O banheiro masculino é logo ali. Vamos lá.
- Eu não sei.
- Não sabe o quê?
- Eu não tô aguentando.
- Vamos lá, eu te levo.

Ele me acompanha. Estou, como se diz, "pisando em ovos". Ao chegar na porta de entrada do banheiro:

- Aqui, pronto. Vai lá.
- Não sei fazer!
- Vou ficar aqui de olho, tô aqui na porta. Chegando ali você vai saber. Usa o banheiro aí dentro. E se precisar de algo me chama.
- Tá.

Ele entrou no banheiro e fechou a porta. Fiquei apreensiva. Era uma situação na qual o controle não dependia em nada de nenhuma atitude minha. As condições não eram favoráveis: o clima não era de docilidade, tampouco de sujeição. Pelo contrário, parecia que ele estava "me testando" o tempo todo. Abri a porta de entrada do banheiro e perguntei, "tudo bem por aí?". "Tudo", ele responde lá de dentro. Observo então, sua saída. Ele abre a porta subitamente, se vira para mim e diz,  "já acabei!". Mal posso acreditar no vejo. Ele ali, de pé, parado, com aquele sorriso sinistro, aguardando por alguma manifestação minha. Minha reação foi de uma frieza calculada em segundos, fiz de conta que não estava vendo nada demais.

Fábio, 33 anos, alto, moreno claro, corpo atlético, cabelos castanhos bem curtos, olhos verdes, belo sorriso e muito asseado, se transformou: seu rosto estava completamente coberto de fezes. É. Cocô. Sim, ele passou merda no rosto. Bosta mesmo, em toda a face. Olhos e boca escaparam. Minha vontade sincera era perguntar, gritando, "mas que merda é essa que você fez?!". Mas, obviamente, não. Reagi com uma naturalidade tão dissimulada, que talvez eu até tenha o decepcionado. Olhei bem em seus olhos e mudei radicalmente o foco.

- Agora lava as mãos, né, Fábio?!

Fui orientando para que ele se higienizasse corretamente. Argumentei que ele não poderia passar na consulta com o médico, "com o rosto suado daquele jeito". Nesta gradação evolutiva de episódios insólitos, o aspecto de Fábio estava muito distante do título "asseado".

O médico do AMA chamou e fomos até sua sala. Passo o caso ao doutor, vou explicando tudo e, de repente, Fábio dá uma cabeçada na mesa do médico, abrindo uma fissura bem no meio da testa, que começa a sangrar em cima do inchaço da pancada anterior. O médico se assustou, levantou da cadeira e, se afastando, pediu a mim "leve-o até a medicação!". O paciente estava, aos poucos e literalmente, virando outra pessoa, em todos os aspectos.

Seguimos para a sala de medicação. Lá, Fábio começa a mexer com as moças da enfermagem, falando coisas como "quanta mulher!". Mas fiquei tranquila porque pensei, "ele está gostando de ficar aqui, acho que vai colaborar". De repente, Fábio decide sair correndo pelo AMA. Assustando os outros pacientes e ignorando meu chamado, ele se esconde na sala de expurgo. Vou atrás dele e, a cada funcionário que encontro pelo caminho, digo "preciso de ajuda aqui". E eles foram passando a informação pela unidade.

Ao me aproximar, vejo o paciente em posição fetal, dentro de um armário. A equipe já estava de prontidão: enfermeiros, auxiliares, gerente, equipe da ambulância e seguranças. Aproveitei para ir até ao CAPS relatar os últimos acontecimentos e confirmar minha conduta de acompanhá-lo até o hospital psiquiátrico. Ao voltar, os profissionais ainda tentavam convencer Fábio a sair dali e eu o ouvia dizendo, "não quero dormir!", "não quero ficar internado!". A enfermeira o convence a sair dali, dizendo que ninguém iria interná-lo nem dar remédio para dormir. Ele se levanta e caminha até a maca. Ao se deitar, a equipe da ambulância e seguranças o imobilizam. Fábio, enfurecido, vocifera, "é injeção! é injeção!. E é aplicada uma injeção de Haloperidol e Prometazina, intramuscular, na coxa.

O paciente estrebucha na maca e profere os piores palavrões. Alterna seu comportamento entre quietude, espasmos e gritos repentinos. Parece que de seus olhos saem faíscas. Sua testa, ainda inchada, tem sangue coagulado. O cabelo, em desalinho, está ensebado. Seu corpo, que está ficando sem tônus, exala odores fétidos. Fala em Lúcifer, em guardião do mal e também dá gargalhadas assustadoras. Em uma dessas gargalhadas, algo cai de sua boca. É o pivô de seu dente frontal. Agora ele está banguela. Finalmente, Fábio havia se metamorfoseado. E então, após 20 minutos, dormiu como um anjo.

*dedico este relato ao enfermeiro Roberto Avelino de Araújo.

27 de jan. de 2012

2000 visitantes!

Neste instante, dois mil visitantes. O Visita da Saúde existe desde abril de 2009 e só fiz meu primeiro post após três meses de criação do blog. Foi suado garimpar estas duas mil joias nestes quase três anos de existência. Mas prefiro, como se pode ver, assim: devagar e sempre. Obrigada pelo interesse, caros(as) leitores(as)!

24 de jan. de 2012

Surto psicótico - Caso 01

Estava na sala de enfermagem, realizando um atendimento, quando escuto um vozeio feminino do lado de fora. O sinal de alerta acendeu. Minutos depois, batem na porta da sala. É a recepcionista, que me diz, "Cinira, as profissionais todas estão ocupadas, não sei o que fazer! Estou com um problema aqui e não sei resolver! A pessoa está muito alterada! Você pode vir aqui?". Pedi um instante de licença ao paciente que eu estava conversando e saí com ela para ver o que estava acontecendo. Avisto na recepção duas moças: uma, em pranto, ao lado de outra, mais sisuda. "Por que você está chorando?", pergunto. Neste instante, a moça séria,  vestida de saia longa e camisa branca fechada até o pescoço, alta estatura e cabelos presos em um longo rabo de cavalo, me pega pelo braço, diz "vem aqui" e me puxa até a sala de onde eu havia acabado de sair. Sem resistir, sigo com ela. Ao abrir a porta da sala de enfermagem, ela se constrange e pede desculpas. Não sabia que havia gente ali. Em segundos pensei, "como fui tola... fui falar com a moça que estava chorando, achando que era ela quem estava 'causando'!". Menos uma percepção limitada na minha vida profissional em saúde mental. Olho nos olhos da moça séria e digo, "vou me despedir deste paciente e te chamo em seguida". Pergunto seu nome. Carolina (nome trocado) está inquieta. Ao meu gesto, indicando para que entrasse, correu, entrou e fechou a porta. Ficamos somente eu e ela, a portas fechadas. Carolina está com um terço e uma garrafa de água mineral nas mãos. Anda de um lado para o outro e a respiração está ofegante. 

- Senta aqui para eu poder conversar com você, por favor. 
- Eu vou benzer a sala primeiro.
- Tudo bem.

Ela abre a garrafa, joga água nas mãos e vai espalhando a "água benta" na sala toda, proferindo preces. Enquanto a observava, eu conduzia minha mente, "crie empatia, seja dócil, ganhe a confiança, entenda o raciocínio, tenha controle da situação sem pressão e, o principal, não subestime a inteligência dela". Ao terminar a "bênção", ela sentou-se, tensa. Respirava fundo e abanava-se, esboçando um sorriso que nunca se concluía. 

- Que lindo seu terço. Você está sempre com ele?
- Sim. Sou postulante das irmãs beneditinas. 
- São Benedito! 
- Você acredita em Deus?
- Sim! 
- Você é católica?
- Pratico pouco o catolicismo atualmente, mas minha formação é católica, estudei em colégio de padres, estudei enfermagem com freiras, faço minhas orações...
- Entendo. Estou vendo seu brinco.

Eu usava um brinco de argolas pequeninas, douradas, com um minúsculo pingente de crucifixo dourado, pendurado do lado esquerdo. A partir daí, entre risadas nervosas e choros retraídos da Carolina, o atendimento foi sendo realizado em tom de bate-papo. Meu objetivo era estabilizar o ânimo da paciente, oferecer um ambiente seguro e confiável e tentar obter elementos para conhecer e compreender o conjunto da situação. A moça que estava chorando é irmã dela. Logo depois, chegou a mãe, com os remédios de Carolina. A paciente relatava que estava tudo bem, mas que o único problema era quando a outra pessoa não entendia o que ela dizia e aí ela perdia a linha de pensamento. Pergunto se posso chamar sua irmã, pois eu queria compreender por que ela estava chorando. Carolina "me autoriza". Conversando com a irmã, soube que a paciente havia puxado o freio de mão do carro, no meio da Radial Leste, e que foi um sufoco, porque quase sofreram um acidente vindo até o CAPS.

Carolina, paciente de 23 anos, nunca usou drogas. A jovem estava apresentando um quadro de surto psicótico, podendo evoluir para uma crise esquizofrênica. Com a paciente, a irmã e a mãe tranquilizadas, explico que estava na hora de chamar a psicóloga porque elas precisariam conversar com uma profissional técnica. A psicóloga deu início ao seu atendimento, mantendo o clima suave que foi instalado no ambiente. Carolina continuava chorando e rindo ao mesmo tempo, mas com menos intensidade. Aos poucos, a psicóloga foi argumentando e convencendo a paciente sobre a necessidade dela tomar a medicação que recusava.

Após ser medicada com, pelo menos, um dos seus remédios, Carolina foi encaminhada ao serviço de referência em transtornos mentais. Na hora de se despedir, me abraçou forte, agradeceu e me chamou de "Sininho" (relacionando meu nome com a fada). Finalizada a longa intercorrência, fui ao banheiro. E chorei. Chorei por ver o sofrimento do portador de uma doença psíquica, por ver o risco em que são expostos os familiares e por Deus se fazer presente nas horas mais inesperadas. Este fato ocorreu no dia seguinte ao momento no qual eu questionava minha atuação na saúde mental.

Após um mês, chegaram dois cartões no trabalho, um endereçado para a psicóloga e outro para mim. A remetente era Carolina. Em um cartão da Nossa Senhora do Sion, ela agradecia o acolhimento e contava que estava melhorando. Atualmente, após dois anos e quatro meses na área, não incomodo Deus, nem santo nenhum, nem santa alguma com determinadas questões. Fadas tampouco.

22 de jan. de 2012

Antes de entrar em 2012 ...

... quero relatar duas intercorrências que aconteceram no meu trabalho, no final do ano passado. Acredito que elas devam constar aqui por duas razões: para aproximar o(a) leitor(a) da realidade de um indivíduo em surto psicótico/esquizofrenia e para contar como me portei diante de situações que nunca havia experimentado antes.

3 de jan. de 2012

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Espero ter ajudado a solucionar um contratempo que está complicando a vida de alguns bloggers!

:-)

7 de out. de 2011

Ausente e distante. Mas não desistente.

Aos leitores,

venho até o blog justificar minha ausência. Sim, tenho histórias para relatar. Não, não perdi a vontade de escrever. Sim, vou voltar a publicar. Só não estou conseguindo organizar.

Outros comprometimentos estão me impossibilitando de parar. O que posso dizer, neste momento, é que comemorei dois anos na área de saúde! E saúde mental. Tudo indica, sobrevivi. E, o melhor, fazendo bem feito. Tenho planos, projetos e novidades.

Voltarei para postar na hora que tiver de fazê-lo.

Obrigada desde sempre.