10 de jun de 2012

A popularização das doenças mentais e a banalização dos termos psiquiátricos

Na reta final do curso técnico de enfermagem, pelo TECSAÚDE (oferecido pelo governo do estado de São Paulo em 2010), uma das professoras solicitou aos alunos um trabalho de conclusão de curso. Resolvi fazer um artigo abordando a popularização das doenças mentais e, consequentemente, a banalização dos termos psiquiátricos. Segue abaixo meu TCC. Achei oportuno publicá-lo aqui, já que o tema está - novamente - em voga, devido ao crime cometido pela prostituta de luxo, advogada e técnica de enfermagem, Elize Araújo Kitano Matsunaga, que confessou ter matado e esquartejado o próprio marido. 


A POPULARIZAÇÃO DAS DOENÇAS MENTAIS E
A BANALIZAÇÃO DOS TERMOS PSIQUIÁTRICOS

Por meio do "telediagnóstico", uso vulgar de palavras da psiquiatria rotula indivíduos
  
Objetivo: Analisar as razões pelas quais pessoas comuns utilizam termos da psiquiatria e esclarecer estes termos
Métodos: Pesquisas na internet, livros, revistas e jornais com assuntos pertinentes ao tema
Título: A popularização das doenças mentais e a banalização dos termos psiquiátricos
Motivação: Entrevista concedida pelo psiquiatra forense Daniel Martins de Barros à Folha de S.Paulo
Palavras-chave: psiquiatria forense, doença mental, telediagnóstico, termos psiquiátricos
  
O objetivo deste artigo é analisar as razões pelas quais pessoas comuns utilizam termos da psiquiatria para “diagnosticar” suspeitos, criminosos e pessoas de seu convívio, como também esclarecer que a utilização indevida dos nomes das doenças psiquiátricas pode induzir ao erro e à injustiça. Serão abordados e analisados o uso leviano de termos como “esquizofrênico”, “psicopata”, “surtado” e “bipolar”, recorrentes tanto na televisão quanto no nosso dia-a-dia.

Interessei-me pelo assunto, a partir da leitura da entrevista concedida pelo psiquiatra forense Daniel Martins de Barros, do núcleo do Instituto de Psiquiatria da USP, ao jornal Folha de S.Paulo em 17/07/2010. Ele explica como a banalização dos termos psiquiáticos acontece, “você vê uma cena na TV e fala que o cara é psicopata. É tratar o diagnóstico de forma muito leviana”, vem daí o “telediagnóstico”. Esta aproximação da psiquiatria com o sensacionalismo dos programas televisivos policiais e novelas que abordam transtornos mentais, contribuem para sua popularização.

De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria, atualmente, existem no Brasil cerca de 23 milhões de pessoas (12% da população) com algum tipo de necessidade de atendimento em saúde mental. Aproximadamente, cinco milhões destes brasileiros sofrem de algum transtorno mental grave.  Em todo o mundo, são mais de 400 milhões de pessoas afetadas por algum distúrbio mental ou comportamental.

Saber desta realidade é fundamental para encontrarmos, cada vez mais, uma melhor resolução e condução no alívio e tratamento destas pessoas. Mas para além dos números, temos uma parcela da sociedade que ainda enxerga de forma preconceituosa e ignorante estes doentes. A começar pela maneira quando usamos certos termos, de forma pejorativa,  ao querermos ofender alguém o chamando de “louco”, “retardado”, “débil mental” e, lembrando das palavras mais atuais, “esquizofrênico”, “psicopata”, “surtado” e “bipolar”.

Já que a televisão populariza expressões de uma maneira vulgar e uma parte da sociedade as dissemina sem saber corretamente o que está proferindo, o presente artigo pretende dirimir qualquer dúvida em relação a estes termos psiquiátricos, buscando a adequação de seu uso e evitando inconveniências.

Conforme a Associação Brasileira de Psiquiatria alerta, são mais recorrentes ainda as doenças ligadas à depressão, ansiedade e transtornos de ajustamento. Mas como estamos lidando com 3% da população brasileira que sofre, principalmente, de esquizofrenia e transtorno bipolar, penso ser urgente o esclarecimento sobre estes últimos temas.

Novelas, filmes, seriados. Em qualquer enredo, quase sempre há um personagem que desestrutura uma situação, tornando tudo mais caótico e, portanto, mais “interessante” de se assistir ou ler. De fato, uma história sem algum conflito é desestimulante. Quando assistimos ao noticiário, também damos mais atenção aos crimes hediondos e nos horrorizamos com a realidade. Estamos falando de nossa condição humana, natural e inerente, que – civilizada ou não – é impulsionada por sentimentos e sensações.

Personagens de novelas ganham popularidade devido às maldades que cometem; enredos nos prendem porque queremos saber o final daquele enganador e assistimos ao programa de televisão até o final, aguardando para ver qual será a punição daquele criminoso que ficou famoso por sua atrocidade.

Não investigarei aqui as razões ou questões psicológicas que levam o ser humano a dar atenção ao que se qualifica como “o mal”. Mas ao apresentar estes exemplos podemos começar a entender o por quê de muitas pessoas chamarem as outras por nomes que elas desconhecem verdadeiramente.

A novela, o livro, o cinema, como composições artísticas e literárias,  usam de forma mais apropriada os termos que cabem ao seu conteúdo. Mas, na maioria das vezes, programas televisivos sensacionalistas  começam a chamar um criminoso de “maníaco” – criando uma alcunha que será utilizada por toda a sua audiência. Esses programas, mais precisamente os ditos “policiais”, fazem isso com qual propriedade técnica? Havia um profissional da psiquiatria na redação ou no estúdio que diagnosticou o criminoso em questão de minutos? Proferir os termos psiquiátricos desta maneira é uma irresponsabilidade porque leva o espectador a vulgarizar o que é preciso compreender com uma certa qualidade técnica. Como disse o psiquiatra forense, Daniel Martins de Barros, ao jornal Folha de S.Paulo, “rotular suspeitos não ajuda a resolver crimes bárbaros”.

O conceito dos termos mais usuais elucidam e mostram a importância de se conhecer a definição de determinadas sentenças técnicas, específicas de uma área profissional, devido sua complexidade. Vamos discorrer sobre as seguintes palavras: bipolar, esquizofrênico, psicopata e surtado.


BIPOLAR

O transtorno bipolar do humor ou transtorno afetivo bipolar, também conhecido como distúrbio bipolar, é uma doença caracterizada por episódios repetidos ou alternados, de mania e depressão. Uma pessoa com transtorno bipolar está sujeita a episódios de extrema alegria, euforia e humor excessivamente elevados (hipomania ou mania) e também a episódios de mau humor e desespero (depressão). Entre os episódios, é comum que passe por períodos de normalidade. Deve-se ter em conta que este distúrbio não consiste apenas de meros "altos e baixos". Altos e baixos são experimentados por praticamente qualquer pessoa, e não caracterizam, necessariamente, um distúrbio. As mudanças de humor do distúrbio bipolar são mais extremas que aquelas experimentadas pelas demais pessoas. O doente de distúrbio bipolar é também comumente chamado de "maníaco-depressivo" por alguns psiquiatras do século XX, não sendo utilizado por  psiquiatras mais modernos. A natureza e duração dos episódios variam grandemente de uma pessoa para outra, tanto em intensidade quanto em duração. No caso grave, pode haver risco pessoal e material. A doença pode se manifestar em crianças, porém, se manifesta em grande parte em adultos, por volta dos 15 a 25 anos. As fases maníacas caracterizam-se também pela aceleração do pensamento (sensação de que os pensamentos fluem mais rapidamente), distraibilidade e incapacidade em dirigir a atividade para metas definidas (embora haja aumento da atividade, a pessoa não consegue ordenar as ações para alcançar objetivos precisos) e, quando em seu quadro típico, prejudicam ou impedem o desempenho profissional e as atividades sociais, não raramente expondo os pacientes às situações embaraçosas e aos riscos variados (dirigir sem cuidado, fazer gastos excessivos, indiscrições sexuais, entre outros riscos). Em casos ainda mais graves, o paciente pode apresentar delírios (de grandeza ou de poder, acompanhando a exaltação do humor, ou delírios de perseguição, entre outros) e também alucinações, embora mais raramente. Nesses casos, muitas vezes, o quadro clínico é confundido com a esquizofrenia. Nem sempre os sintomas maníacos ou depressivos são bem claros. Até quem convive com um bipolar sente dificuldades em distinguir uma aflição comum de uma depressão ou uma alegria de uma euforia. A doença é de difícil diagnóstico, mesmo para profissionais da saúde que acompanhem há um longo tempo o paciente. Porém, após diagnóstico positivo, saber se está ou não em surto, é uma dificuldade constante.

ESQUIZOFRÊNICO

A esquizofrenia é um transtorno psíquico severo que se caracteriza classicamente pelos seguintes sintomas: alterações do pensamento, alucinações (visuais, cinestésicas, auditivas), delírios e alterações no contato com a realidade. Junto da paranoia (transtorno delirante persistente) e dos transtornos graves do humor (a antiga psicose maníaco-depressiva, hoje fragmentada em episódio maníaco, episódio depressivo grave e transtorno bipolar), as esquizofrenias compõem o grupo das psicoses. É hoje encarada, não como doença no sentido clássico do termo, mas sim como um transtorno mental, podendo atingir diversos tipos de pessoas, sem exclusão de grupos ou classes sociais. De acordo com algumas estatísticas, a esquizofrenia atinge 1% da população mundial, se manifestando habitualmente entre os 15 e 25 anos, nos homens e nas mulheres, podendo igualmente ocorrer na infância ou na meia-idade. Algumas pessoas acometidas da esquizofrenia se destacaram e se destacam no meio acadêmico, artístico e social. Um exemplo famoso é o do matemático norte-americano John Forbes Nash que, apesar do desafio de conviver por toda a vida com os sintomas psicóticos típicos, foi um intelectual importante e deixou grandes contribuições às áreas de economia, biologia e teoria dos jogos.  A persecutoriedade (se sentir perseguido por algo ou por alguém) é uma convicção profunda para este sujeito que não aceita outras causas por mais óbvias que estas sejam. O esquizofrênico também sempre acha que parte de seu corpo não está bem, não está funcionando corretamente ou ainda que algum órgão esteja falindo ou faltando. Muitas vezes esses órgãos estão relacionados ao coração, pulmão, rim, fígado ou baço. A sistematização do delírio é frequente, porém o esquizofrênico delirante paranoide é o que apresenta menor deteriorização de sua personalidade. É comum relacionar-se bem com as outras pessoas, ter respostas afetivas próximas do normal e processo de pensamento e cognição preservados. O distúrbio esquizofrênico fica mais evidente quando o paciente é confrontado com o assunto que é emocionalmente significativo para ele ou quando é posto à prova por meio de testes de personalidade ou testes projetivos. De modo geral, as pessoas que convivem com o esquizofrênico somente reconhecem os problemas quando a pessoa tenta explicar suas crenças sobre seu corpo ou sobre as perseguições a que se sente submetido.

PSICOPATA

A psicopatia, também conhecida como sociopatia, tem sido associada ao protótipo do assassino em série, porém, nem todos os assassinos são psicopatas e nem todos os psicopatas chegam a ser assassinos ou fisicamente violentos. Importa desmistificar esta ideia, porque podemos estar lidando diariamente com um psicopata, sem termos a noção que aquela pessoa está realmente doente. Há pessoas que só percebem que está de perto com um psicopata, momentos antes de uma fatalidade lhes acontecer, nomeadamente um homicídio, por exemplo. Embora esta doença seja mais comum nos homens, também é possível encontrar mulheres sociopatas. Os primeiros sinais começam a se tornar mais evidentes a partir dos 15 anos de idade. A rigor, a psicopatia é um distúrbio mental grave caracterizado por um desvio de caráter, ausência de sentimentos genuínos, frieza, insensibilidade aos sentimentos alheios, manipulação, egocentrismo, falta de remorso e culpa para atos cruéis e inflexibilidade com castigos e punições. Embora popularmente a psicopatia seja conhecida também como "sociopatia", cientificamente, a doença é denominada como sinônimo do diagnóstico do transtorno de personalidade antissocial. A psicopatia parece estar relacionada a algumas importantes disfunções cerebrais, sendo importante considerar que um só único fator não é totalmente esclarecedor para causar o distúrbio; parece haver uma junção de componentes. Embora alguns indivíduos com psicopatia mais branda não tenham tido um histórico traumático, o transtorno – principalmente nos casos mais graves, tais como sádicos e serial killers – parece estar associado à mistura de três principais fatores: disfunções cerebrais/biológicas ou traumas neurológicos, predisposição genética e traumas sociopsicológicos na infância (como abuso emocional, sexual, físico, negligência, violência, conflitos e separação dos pais etc). Todo indivíduo antissocial possui, no mínimo, um desses componentes no histórico de sua vida, especialmente a influência genética, entretanto, nem toda pessoa que sofreu algum tipo de abuso ou perda na infância irá se tornar uma psicopata sem ter uma certa influência genética ou distúrbio cerebral; assim como é inadimissível afirmar que todo psicopata já nasce com essas características. Portanto, a junção dos três fatores torna-se essencial. Há de se considerar desde a genética, traumas psicológicos e disfunções no cérebro (especialmente no lobo frontal e sistema límbico).

SURTADO

Surto psicótico é um episódio de dissociação da estrutura psíquica do indivíduo, fazendo com que este mostre comportamentos socialmente estranhos e diferentes, devido à momentânea incapacidade de pensar racionalmente. Os surtos são comuns na esquizofrenia e podem ocorrer da fase maníaca aguda do transtorno bipolar. Também podem ocorrer devido às substâncias psicoativas, como álcool, anfetamina, cocaína, crack, etc. Durante o surto, podem ocorrer manifestações de paranoia, alucinações e delírios. O surto geralmente dura algumas semanas e pode ser encurtado de acordo com a medicação administrada. A medicação também pode impedir um surto ou torná-lo menos grave quando ocorrer. Normalmente, o surto é precedido por comportamentos estranhos do indivíduo, que só podem ser detectados poucos dias antes que este entre em crise. Sendo assim, é muito importante acompanhar pacientes nesta situação a fim de medicá-los antes. Segundo o DSM IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), um dos sintomas para se diagnosticar esquizofrenia é a duração do surto de, no mínimo, seis meses. Delírios, alucinações, comportamento desorganizado e discurso desorganizado são sintomas obrigatórios, devendo estar presentes pelo menos dois destes para classificar o estado como um surto psicótico. Os psicólogos apresentam uma diferenciação entre delírios e alucinações, conceitos que são constantemente confundidos. Delírios são alterações do pensamento que se caracterizam por ideias que não condizem com a realidade objetiva, enquanto que alucinações envolvem sempre algum órgão senso-perceptivo, como a audição, a visão, o tato, o olfato e a sinestesia (sensações internas). Elas não são invenções – a pessoa realmente está vendo, ouvindo ou sentindo algo. Ou seja, o primeiro ocorre na mente e o segundo atinge os sentidos. Do ponto de vista psiquiátrico, o surto psicótico está relacionado a uma distorção dos neurotransmissores, ou seja, das substâncias químicas produzidas pelos neurônios e que são responsáveis pelo envio de informações a outras células. O pensamento tem um curso e um conteúdo: quando o conteúdo do pensamento está desagregado, ele perde conexão com a realidade ou a distorce, passando a ser um sintoma de surto psicótico.

A pesquisa acerca das definições e dos conceitos psiquiátricos revela a necessidade de que se pare de usar os termos técnicos das doenças mentais de forma leviana e indiscriminada. Como foi visto, a abrangência e profundidade do assunto deveria despertar a respeitabilidade dos programas televisivos e do público leigo que se apropriam indevidamente daquilo que desconhecem.

Como esclarece o psiquiatra forense Daniel Martins de Barros, na entrevista concedida à Folha de S. Paulo, há uma tendência de querer considerar crimes ou comportamentos inadequados como fruto de uma alteração psíquica. Diz ele, “a sociedade tenta buscar nas ferramentas médicas a solução para isso”. A banalização da psicopatologia reduz a complexidade e as múltiplas causas de um crime ou de uma ação comportamental não esperada.

A problemática da popularização das doenças mentais e da banalização dos termos psiquiátricos está também no estereótipo que é, fundamentalmente, fruto do preconceito. Rotular um indivíduo com doença mental é um hábito do senso comum. Mesmo assim, o preconceito não impossibilita a inclusão desse grupo na sociedade. Hoje há espaço e possibilidades – mesmo que pequena – ao reconhecimento do doente mental como cidadão pleno de direitos e deveres. A falta de informação e do comprometimento dos setores governamentais contribuem para que os portadores de transtornos mentais sejam vítimas desta ignorância. De algumas décadas para cá, aconteceram mudanças positivas que, aos poucos, estão tranformando a atual realidade. Os médicos se esforçam para mudar a forma como o doente mental é visto e tratado.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem uma campanha de desestigmatização dos doentes,  mas apesar de todo o progresso conseguido em muitos outros aspectos de saúde, a saúde mental ainda não recebe a atenção e os recursos que mereceria. Na tentativa de aproximar as pessoas da questão da doença mental, a OMS declarou no dia 10 de outubro de 2001, o Dia Mundial da Saúde Mental, para sensibilizar o público em geral e provocar mudanças relevantes na posição pública acerca do tema. A ideia é despertar a atenção e a melhoria dos cuidados de saúde mental. Quase uma década se passou da criação da data, mas – lamentavelmente – parece que as pessoas continuam a lidar com o assunto sem a seriedade que lhe cabe.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARROS, Daniel Martins de. O que é Psiquiatria Forense. Editora Brasiliense. 2008.
MATTOS, Virgílio de. Crime e Psiquiatria, uma saída: preliminares para a desconstrução da medida de segurança. Editora Revan. 2006.
MURTA, Genilda Ferreira. Dicionário Brasileiro de Saúde. Difusão Editora. 2007.
RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. Saúde mental no Brasil. Editora Arte & Ciência. 1999.

REFERÊNCIAS DE INTERNET 
11 de outubro de 2010