3 de fev de 2012

Surto psicótico - Caso 02

Fábio (nome trocado), paciente do CAPS Adulto (de transtornos mentais), diagnosticado com esquizofrenia, estava fazendo uso de cola de sapateiro de uns tempos para cá. Sua referência em saúde mental o encaminhou para o tratamento de dependência química no CAPS Álcool e Drogas. Chegou à unidade sozinho. Enquanto ele se apresentava à recepção, eu usava o computador, no mesmo local. E observei. Alto, moreno claro, corpo atlético, cabelos castanhos bem curtos, olhos verdes, um belo sorriso, 33 anos. Muito asseado. Nas mãos, ele segurava o livro "O Guardião da Meia-Noite". "Quero doar este livro para vocês", disse. E foi orientado a colocar a doação na estante da pequena biblioteca. 

Em alguns instantes, ele seria atendido pela psicóloga, que pediu que a esperasse na sala de atendimento. O paciente aguardava calmamente. De repente, ouvimos um estrondo. A psicóloga desconfia que o som veio de sua sala e corre até lá. Acompanhei. O paciente Fábio está de pé, em frente à mesa, com os olhos vidrados e uma mancha vermelha na testa. A psicóloga pergunta, "o que foi isso, rapaz?". Ele responde, com um sorriso medonho, "estou verificando a qualidade". Ele havia dado uma cabeçada na mesa. Tensão. A psicóloga o adverte e pede que ele não faça mais isso. Diante das circunstâncias, ela solicita atendimento emergencial ao médico psiquiatra, que atende imediatamente. Fábio entrou na sala do médico e fechou a porta. Neste momento, pela primeira vez na minha rotina de trabalho, tive uma intuição realmente negativa. Medo.

Passados dois minutos, a porta da sala do psiquiatra se abre e o próprio, em voz alta, pede ajuda, "alguém venha aqui, olhe só, ele se defecou todo!". Nojo. Não sobrou um. Fiquei só eu ali, de pé, tentando entender o incompreensível. O psiquiatra, atordoado e nervoso, ao me ver, disse, "Cinira, leve ele ao banheiro. Olhe o estado que ficou isso aqui! Que presente de aposentadoria!". Desolação. Sim, era o último dia de trabalho do doutor, que estava se aposentando naquela data. E eu ainda tive a presença de espírito de tentar consolá-lo dizendo, "fica tranquilo, doutor, isso é sinal de boa sorte". Durante o atendimento psiquiátrico, o paciente defecou nas próprias calças. Sentindo-se incomodado com o volume que ficou ali depositado, resolveu eliminar aquela sensação de desconforto: introduziu sua mão dentro da cueca, retirou suas fezes e as jogou no chão e na parede da sala onde estava. Em 15 minutos, vivenciamos uma montanha russa de emoções.

Dirijo-me ao paciente, que agora está com o semblante desatinado e com as mãos sujas de fezes. Pensei comigo, "não diga nada, não pergunte nada, só o encaminhe e o oriente". Chamei, "Fabio, vem aqui comigo ao banheiro". "Não consegui controlar...", ele justifica. Aos poucos, as colegas foram reaparecendo: a auxiliar de limpeza, as psicólogas, a assistente social, recepcionista... Como na unidade não havia medicação de urgência, fui incumbida de levá-lo à Assistência Médica Ambulatorial (AMA), no prédio vizinho, onde ele seria medicado e encaminhado para uma avaliação em um pronto-socorro psiquiátrico. Mas minha intuição estava realmente muito negativa e senti que, a qualquer momento, o pior ainda viria.

Eu e o paciente aguardávamos o atendimento.  O AMA estava cheio de gente. Eu pensava, "ele pode fazer qualquer coisa, a qualquer momento". Sempre ao lado dele e conversando bastante, eu falava como se tudo fosse uma grande novidade, porque agora ele se comportava como uma criança travessa. Andando para lá e cá, perguntava coisas como, "isso aqui é um hospital?", "posso gritar?". Até chegar a hora dele me dizer, "preciso fazer cocô".

- Ali. O banheiro masculino é logo ali. Vamos lá.
- Eu não sei.
- Não sabe o quê?
- Eu não tô aguentando.
- Vamos lá, eu te levo.

Ele me acompanha. Estou, como se diz, "pisando em ovos". Ao chegar na porta de entrada do banheiro:

- Aqui, pronto. Vai lá.
- Não sei fazer!
- Vou ficar aqui de olho, tô aqui na porta. Chegando ali você vai saber. Usa o banheiro aí dentro. E se precisar de algo me chama.
- Tá.

Ele entrou no banheiro e fechou a porta. Fiquei apreensiva. Era uma situação na qual o controle não dependia em nada de nenhuma atitude minha. As condições não eram favoráveis: o clima não era de docilidade, tampouco de sujeição. Pelo contrário, parecia que ele estava "me testando" o tempo todo. Abri a porta de entrada do banheiro e perguntei, "tudo bem por aí?". "Tudo", ele responde lá de dentro. Observo então, sua saída. Ele abre a porta subitamente, se vira para mim e diz,  "já acabei!". Mal posso acreditar no vejo. Ele ali, de pé, parado, com aquele sorriso sinistro, aguardando por alguma manifestação minha. Minha reação foi de uma frieza calculada em segundos, fiz de conta que não estava vendo nada demais.

Fábio, 33 anos, alto, moreno claro, corpo atlético, cabelos castanhos bem curtos, olhos verdes, belo sorriso e muito asseado, se transformou: seu rosto estava completamente coberto de fezes. É. Cocô. Sim, ele passou merda no rosto. Bosta mesmo, em toda a face. Olhos e boca escaparam. Minha vontade sincera era perguntar, gritando, "mas que merda é essa que você fez?!". Mas, obviamente, não. Reagi com uma naturalidade tão dissimulada, que talvez eu até tenha o decepcionado. Olhei bem em seus olhos e mudei radicalmente o foco.

- Agora lava as mãos, né, Fábio?!

Fui orientando para que ele se higienizasse corretamente. Argumentei que ele não poderia passar na consulta com o médico, "com o rosto suado daquele jeito". Nesta gradação evolutiva de episódios insólitos, o aspecto de Fábio estava muito distante do título "asseado".

O médico do AMA chamou e fomos até sua sala. Passo o caso ao doutor, vou explicando tudo e, de repente, Fábio dá uma cabeçada na mesa do médico, abrindo uma fissura bem no meio da testa, que começa a sangrar em cima do inchaço da pancada anterior. O médico se assustou, levantou da cadeira e, se afastando, pediu a mim "leve-o até a medicação!". O paciente estava, aos poucos e literalmente, virando outra pessoa, em todos os aspectos.

Seguimos para a sala de medicação. Lá, Fábio começa a mexer com as moças da enfermagem, falando coisas como "quanta mulher!". Mas fiquei tranquila porque pensei, "ele está gostando de ficar aqui, acho que vai colaborar". De repente, Fábio decide sair correndo pelo AMA. Assustando os outros pacientes e ignorando meu chamado, ele se esconde na sala de expurgo. Vou atrás dele e, a cada funcionário que encontro pelo caminho, digo "preciso de ajuda aqui". E eles foram passando a informação pela unidade.

Ao me aproximar, vejo o paciente em posição fetal, dentro de um armário. A equipe já estava de prontidão: enfermeiros, auxiliares, gerente, equipe da ambulância e seguranças. Aproveitei para ir até ao CAPS relatar os últimos acontecimentos e confirmar minha conduta de acompanhá-lo até o hospital psiquiátrico. Ao voltar, os profissionais ainda tentavam convencer Fábio a sair dali e eu o ouvia dizendo, "não quero dormir!", "não quero ficar internado!". A enfermeira o convence a sair dali, dizendo que ninguém iria interná-lo nem dar remédio para dormir. Ele se levanta e caminha até a maca. Ao se deitar, a equipe da ambulância e seguranças o imobilizam. Fábio, enfurecido, vocifera, "é injeção! é injeção!. E é aplicada uma injeção de Haloperidol e Prometazina, intramuscular, na coxa.

O paciente estrebucha na maca e profere os piores palavrões. Alterna seu comportamento entre quietude, espasmos e gritos repentinos. Parece que de seus olhos saem faíscas. Sua testa, ainda inchada, tem sangue coagulado. O cabelo, em desalinho, está ensebado. Seu corpo, que está ficando sem tônus, exala odores fétidos. Fala em Lúcifer, em guardião do mal e também dá gargalhadas assustadoras. Em uma dessas gargalhadas, algo cai de sua boca. É o pivô de seu dente frontal. Agora ele está banguela. Finalmente, Fábio havia se metamorfoseado. E então, após 20 minutos, dormiu como um anjo.

*dedico este relato ao enfermeiro Roberto Avelino de Araújo.

7 comentários:

Marina Almeida disse...

Coragem. Essa é a única palavra que me vem à cabeça agora. Que história impressionante. Parabéns, Cinira. Só pode ser dom mesmo!!! Bjs

C. Fiuza disse...

Obrigada, Ma.

Ina Mariana disse...

Gente! Estou passada. Só você mesmo pra consguir manter a calma e agir com frieza e naturalizade. Mas confesso, esses "causos" são interessantíssimos de ler, de saber... Porém, não consigo nem me imaginar vivenciando uma situação dessas. Grande beijo

C. Fiuza disse...

Ininha! Viu só como tem sido meu trabalho em saúde mental? Vou interpretar a palavra "frieza", citada aqui, no seu sentido mais intrépido. Porque, por dentro, eu ardia em chamas! Um beijo, sobrinha amada, e obrigada por visitar e comentar.

Rafa Gushi disse...

Nossa, realmente é um relato bombástico! Não sei se teria as mesmas reações que as tuas, mas ao mesmo é muito perigoso e delicado lidar com pessoas que tenham esse tipo de problema, vc fez o melhor mesmo, parabéns! "Força, leveza e fôlego" (é isso mesmo? hehe...)

Juliana disse...

Cinira! Há um bom tempo não passava por aqui. Seus textos, seu trabalho, a junção de suas profissões estão incríveis. Parabéns do fundo do coração.
Beijo! Ju Gardim

C. Fiuza disse...

Força, leveza e fôlego é preciso! Rafa querido, obrigada por dedicar um tempinho para visitar e apreciar o blog e fico mais agradecida ainda por postar seu comentário. Não sei se fiz o melhor, mas evitei ao máximo fazer o pior! rs... Um beijo!

Ju! Vc sempre me dando esta força, muito obrigada! Acho que as coisas agora coadunaram mesmo. E, para complementar, a novidade é que estou fazendo faculdade de Enfermagem! Agora vai! rs...

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